Venerável Mestre Gangxiao: Terapia ECT para Doenças Intratáveis e Complicadas, Capítulo 2: Inspirações da Teoria Morita
Inspirações da Teoria Morita
Capítulo 2: Inspirações da Teoria Morita
A Terapia Morita, construída sobre as teorias do Dr. Shoma Morita, é hoje amplamente reconhecida em todo o mundo, então imagino que começar por aqui não deva levantar muita polêmica. A Terapia Morita foi desenvolvida por volta de 1920 pelo Professor Shoma Morita, do Japão. Como escola de psicoterapia, está entre as melhores do mundo. Uma sessão especial sobre a Terapia Morita foi realizada no Congresso Mundial de Psiquiatria de 1977. Um livro de autoria norte-americana sobre o assunto foi publicado em inglês e espanhol. Vários escritos do próprio Morita foram publicados na China. Hospitais que praticam a Terapia Morita podem ser encontrados na China, nos Estados Unidos, no Canadá, no Japão e em outros países. A primeira conferência acadêmica internacional sobre a Terapia Morita aconteceu em 1990, reunindo representantes de onze países. Os Anais Internacionais da Terapia Morita (em inglês) e a Revista da Associação de Terapia Morita (em japonês) seguem com publicação oficial. A Associação Chinesa de Saúde Mental conta com um comitê profissional dedicado à aplicação da Terapia Morita, que até 2000 já havia promovido quatro conferências acadêmicas.
Morita defendia que um certo tipo de pessoa nasce com uma predisposição hipocondríaca — introvertida, excessivamente atenta ao próprio corpo. Ele chamava essas pessoas de "neuróticos", e o termo acabou pegando: neuróticos de Morita. Muitas das doenças físicas que essas pessoas desenvolvem são, na verdade, de origem psicogênica — enraizadas na mente, não no corpo.
1. Fixação nas Percepções de Doença
O Professor Morita observou que algumas pessoas, depois de um surto de algo parecido com gripe, ou depois que uma mulher dá à luz, recuperam-se fisicamente por completo — porém certas sensações desconfortáveis persistem na mente, teimosas e duradouras, fazendo com que sempre sintam que não se curaram de todo. Em casos como esses, a medicação não passa de um consolo passageiro. Pode até sair pela culatra, reforçando o desconforto: Estou tomando remédio o dia inteiro — eu realmente estou doente.
Todos nós já ouvimos histórias de pessoas que ficaram com hemiplegia depois de um AVC e que, na verdade, já se recuperaram, devendo poder largar as muletas e andar por conta própria — mas o medo, a hipervigilância e o excesso de cautela prendem os sintomas no lugar. No entanto, se um incêndio começa ou outra emergência surge, elas podem de repente sair correndo — tão rápido que até elas mesmas se surpreendem.
Pessoas comuns passam por algo semelhante. Depois de descer de um barco, é possível continuar sentindo uma sensação de balanço por um bom tempo, mesmo já deitado na própria cama. Coloque um chapéu na primavera, tire-o, e você ainda o sente na cabeça. Ande de moto usando óculos comuns de proteção contra o vento, tire-os, e você ainda sente as hastes apoiadas nas orelhas.
São as chamadas doenças "enraizadas" — condições em que as pessoas dizem ter "lançado uma raiz" de dor no braço, dor de cabeça ou dor de estômago em algum momento ou lugar específico, e essa raiz ficou desde então. Trata-se de uma vasta categoria de doenças. Pense bem: do ponto de vista biológico, não há nada de errado na prática. Como poderia a biomedicina — pílulas, injeções — atuar em algo que, biologicamente falando, não está lá?
2. O Efeito da Interação Mental
Existe um ditado chinês: quanto mais você tem medo, mais o lobo aparece para te assustar. Se você vive temendo a insônia e já acumulou toda sorte de truques — contar ovelhas e por aí afora —, a noite chega e você lança mão de todos eles, desesperado para dormir. Quanto mais ansioso e agitado você fica, mais o sono escapa.
A frequência cardíaca já é bastante sensível a estados psicológicos. Suponha que você tenha testemunhado a morte agonizante de um ente querido ou amigo por doença cardíaca. Naquele momento, apenas o medo já pode fazer seu coração disparar. Você mede o pulso — e, de fato, ele está acelerado, com mais de cem batidas por minuto. Agora você está ainda mais assustado: Será que algo também está errado com o meu coração? Você continua medindo o pulso. Deitado na cama à noite, você fica ali sentindo o pulso de novo. Sob essa nuvem de "terror antecipatório", seu pulso com certeza fica acelerado — você pode até sentir todo o corpo vibrando a cada batida. E assim, eventualmente, você acaba se tornando um paciente com doença cardíaca ou pressão alta.
Esse é o efeito de interação mental descrito por Morita. A seguir, a definição que extraí de A Essência e o Tratamento da Neurose (People's Medical Publishing House, 1992): "O chamado efeito de interação mental na neurose consiste no processo em que a atenção se concentra e se volta para uma sensação que surge ao acaso. Isso torna a sensação mais aguda. A sensação aguda, por sua vez, atrai ainda mais atenção, fixando-se cada vez mais nela. Dessa forma, sensação e atenção se reforçam mutuamente em um ciclo de amplificação recíproca, e a sensação vai se tornando cada vez mais intensa."
Dores de cabeça, tontura ao se levantar de repente, névoa mental, palpitações, dificuldade de concentração, insônia, inchaço abdominal, dor — sintomas como esses são facilmente agravados pelo efeito de interação mental.
Esse tipo de atenção concentrada pode, de fato, amplificar as sensações. Imagine um casal que se senta para cochichar um com o outro durante um baile. A música está alta, mas eles conseguem ouvir cada palavra perfeitamente. Se você perguntar a eles, depois, qual música estava tocando, eles não saberão dizer — não estavam prestando atenção a ela. O foco concentrado deles amplificou aqueles sussurros baixos a ponto de parecerem, para eles, mais altos do que a música estrondosa.
Ou imagine uma mãe cujo filho está doente há vários dias. O estado da criança finalmente melhora um pouco, e a mãe exausta, segurando o bebê no colo, acaba adormecendo. Um trovão estala logo acima e não a desperta. Mas o menor ruído vindo da criança doente, e ela acorda instantaneamente. O pequeno movimento do filho, amplificado pela atenção dela, parece mais alto do que o trovão.
"O tilintar da rédea de um cavalo desperta o soldado adormecido."
É o mesmo princípio.
Experiências desconfortáveis que qualquer pessoa pode ter são amplificadas pelo efeito de interação mental, transformando-se em percepções genuínas de doença e sintomas plenamente desenvolvidos na mente neurótica. O professor Morita documentou muitos desses casos — crises de dor de estômago, acessos de cólica abdominal, palpitações súbitas — todos os quais ele identificou e curou.
Lembre-se: os sintomas da neurose de Morita são fisiológicos. São sintomas fisiológicos sem causa fisiológica. Se você não conseguir ver isso com clareza, acabará sem opção a não ser classificar essas condições como "doenças misteriosas" ou "doenças intratáveis".
3. Terapia Morita
"Entregar-se à natureza" é o princípio norteador da Terapia Morita, embora os detalhes variem conforme cada caso.
Primeiro: para sintomas neuróticos agudos e episódicos, interromper o efeito da interação mental e eliminar o terror antecipatório pode trazer alívio rápido. Em certos ataques recorrentes de dor — especialmente os que seguem um padrão regular —, Morita orientava o paciente a adotar qualquer postura que mais facilmente provocasse o episódio, e a acolher o ataque em vez de temê-lo. E o ataque não vinha. O professor Morita descreveu um caso assim: uma mulher de sessenta e nove anos que havia adoecido pela primeira vez dez anos antes. A princípio, o serviço de medicina interna de um hospital universitário diagnosticou câncer de estômago. No ano seguinte, o mesmo hospital diagnosticou cálculos biliares e recomendou cirurgia, que ela recusou. Depois disso, consultou mais doze médicos, sem melhora. O Dr. Futaki suspeitou de neurose e a encaminhou ao professor Morita. Quando ela chegou à clínica de Morita, sofria de fortes dores estomacais duas vezes por dia — de manhã e à noite —, cada episódio durando de uma a duas horas. Morita confirmou a origem neurótica: uma alucinação de dor estomacal, parecida com sentir dor de estômago num sonho e ficar aterrorizada, sem perceber que é apenas um sonho. Ele a internou. No primeiro dia, com o pretexto de diagnóstico e tratamento, instruiu-a a fazer tudo ao seu alcance para provocar um ataque — quanto mais grave e evidente, melhor. Ela devia acolher o episódio em vez de temê-lo. Durante três dias seguidos, não conseguiu provocar nenhum. Mais tarde, quando o menor sinal de um ataque apareceu, ela ficou encantada: Finalmente, um ataque para o médico observar! Mas no instante em que esse pensamento lhe ocorreu, o ataque se desfez. Pouco tempo depois, recebeu alta, curada.
Para a insônia grave, Morita usava uma abordagem semelhante — fazia o paciente deitar-se numa posição desconfortável enquanto o médico "observava" a insônia. O paciente adormecia quase imediatamente.
Segundo: para pacientes neuróticos crônicos, o objetivo passa a ser transformar a própria personalidade neurótica e introvertida. O tratamento se desenrola em etapas:
Etapa um — o paciente fica deitado na cama, perfeitamente imóvel, durante uma semana inteira. Pode parecer que não é nada — apenas dormir! Mas não é tão simples. No primeiro ou segundo dia, você ainda pode se sentir bem, cochilando após as refeições, sem nada do que reclamar. No terceiro ou quarto dia, a inquietação se instala — até se tornar insuportável. Privar alguém da liberdade de movimento sempre foi uma forma de punição. O confinamento solitário ainda é usado como tal até hoje. Em 13 de maio de 1998, o Henan Daily publicou uma reportagem crítica com a manchete "Que tipo de disciplina policial é essa do Departamento de Segurança Pública de Huixian?". A história: um policial da cidade havia ficado bêbado e agredido um motorista de táxi, e recebeu apenas sete dias de confinamento como punição. O jornal considerava a pena excessivamente leve e observava: "Ele violou flagrantemente as regras ao agredir alguém, e se livrou de nada mais do que confinamento solitário."
A Terapia Morita cria deliberadamente um ambiente de privação sensorial: paredes em branco, silêncio quase total. Algumas instalações chegam a acrescentar um toque físico engenhoso — um cubo de gelo colocado sobre a cabeça do paciente, para que o menor movimento o faça escorregar e cair. No início, a atenção do paciente se fixa nos sintomas: Isso dói, aquilo parece errado. Mas no terceiro ou quarto dia, a pura frustração de estar confinado varre todas essas queixas para o lado — a fixação se desfaz. A partir daí, o leque de atividades vai se expandindo aos poucos. A cada nova liberdade, surge uma pequena sensação de alívio, e o processo avança: entra-se na etapa dois, o período de trabalho leve — tarefas simples, pouco exigentes; depois, a etapa três, de trabalho pesado; e, por fim, a etapa quatro, com exercícios de adaptação social. O curso completo dura cerca de quarenta dias, ao fim dos quais a maioria dos pacientes está curada.
Se pararmos para pensar, a Terapia Morita é profundamente lógica — e seus resultados clínicos em todo o mundo têm sido impressionantes.
Não é meu objetivo aprofundar a Terapia Morita neste livreto. Além disso, os próprios escritos de Morita são bem curtos, e o leitor pode procurá-los por conta própria. O que quero é simplesmente extrair a essência — porque, como vimos, o curso completo do tratamento Morita é longo, cerca de quarenta dias, algo que a maioria das pessoas hoje em dia teria dificuldade de aceitar. Porém, a teoria por trás dele é rica em percepções valiosas, e cabe a nós assimilá-las e aprimorar o método.