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Por Que Frequentemente Nos Sentimos Sós

A própria vida já é inteira — autossuficiente, completa em todos os sentidos, sem nada pedir ao exterior. Contudo, a ganância nascida da ignorância continua a sussurrar que devemos buscar apoio lá fora. O problema é que nada do lado de f...

Por Que Frequentemente Nos Sentimos Sós?

Selecionado de Not for Happiness, de Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche

A própria vida já é inteira — autossuficiente, completa em todos os sentidos, sem nada pedir ao exterior. Contudo, a ganância nascida da ignorância continua a sussurrar que devemos buscar apoio lá fora. O problema é que nada do lado de fora se mantém confiável para sempre. Assim, à medida que continuamos procurando, uma inquietação silenciosa se instala no coração.

Nosso corpo, nossa família, nossa carreira — qual deles permanece o mesmo? Podemos ver a impermanência se desenrolando a cada dia, ainda assim, de alguma forma, isso não nos desperta. Quando muito, faz com que nos apeguemos com mais força, como se agarrar com firmeza bastasse para reter a maré, como se só o nosso agarrar pudesse tornar inquebrável aquilo a que nos apegamos.

Nosso apego não surge pronto e formado. Ele cresce cada vez que o desejo se inflama, e no fim nos tornamos vítimas do nosso próprio querer. O dano que causa cresce na proporção da força com que nos apegamos.

Tomemos um colapso financeiro. Muitas pessoas sofrem, mas de modos muito diferentes. Algumas tiram a própria vida. Outras perdem o juízo. Outras ainda ficam abaladas por um tempo e depois se recuperam. Quanto mais profundo o apego, maior o golpe quando as circunstâncias mudam; quanto mais leve o agarrar, menor o dano. É como subir num prédio fadado a desmoronar — quanto mais alto se sobe, mais dura é a queda.

Também estamos constantemente alimentando nosso autoapego. O que quer que façamos, o "eu" está sempre ali, bem no centro. Na verdade, uma coisa do início ao fim é apenas um processo de originação dependente. Nos apegamos a um "eu" dentro dele, e a sensação de que o "eu" é quem termina qualquer coisa nasce da ilusão e do mau hábito.

O que é, afinal, esse "eu"? O eu que tomamos por nós mesmos não passa de uma fantasia. Pode o corpo tomar o seu lugar? Pele e ossos vieram dos nossos pais. Quando a consciência entra no ventre na concepção, nos apossamos daquele pequeno material herdado como "eu", e a partir desse momento começa todo o drama da "minha vida". Se isso é "eu", então qual era o rosto original antes de seus pais nascerem?

Num mundo de originação dependente, não há "eu" nem "meu". A continuação da vida é simplesmente a continuação de causas e condições. Nosso corpo é como um vaso que levamos conosco. O vaso é "meu"? Só quando o decidimos como tal é que ele recebe esse rótulo.

De outra forma, o que poderia ele ter a ver com o "eu"? Mas no momento em que projetamos nosso apego sobre ele e o chamamos de "meu", cada pequena mudança começa a nos afetar. Quando ele se desgasta, sentimos tristeza. Quando ele se quebra, sofremos.

O mesmo se dá com o corpo, só que de modo mais profundo e duradouro — o apego se fundiu com ele e não pode ser separado. Desde o próprio instante da concepção, o apego já está presente. Na verdade, muito antes da concepção, já nos agarrávamos ao eu, vida após vida. Em cada lampejo da nossa atividade mental, continuamos partindo do "eu", continuamos inserindo o "eu", continuamos reforçando o "eu".

Quando temos sucesso, dizemos que o "eu" teve sucesso. Quando fracassamos, dizemos que o "eu" fracassou. Se pudéssemos simplesmente entregar-nos por inteiro ao que fazemos, sem que o "eu" se misture, o sucesso e o fracasso não nos feririam. A ascensão e a queda de qualquer empreendimento são, por si mesmas, originação dependente. Uma vez que vemos isso, podemos dedicar nosso esforço às causas e deixar que os resultados sejam — e não seremos esmagados pelo apego.

O autoapego nos faz querer nos colocar em destaque a cada momento. Mas o que é, afinal, esse eu? Não existe tal coisa em nenhum lugar. Contudo, o centro do ego que o autoapego constrói nos põe contra todos os demais. Uma vez que essa sensação de eu se instala, imediatamente nos vemos de frente para o mundo inteiro.

O "eu" de um lado, o mundo inteiro do outro. Não é de admirar que as pessoas modernas se sintam sós — quando o seu mundo só tem você, a solidão é inevitável. Se, por outro lado, você e o mundo inteiro, você e cada ser, fossem verdadeiramente um, você nem saberia o que significa solidão.

Com a pandemia entre nós, leia mais, pense mais!

Que estejamos todos bem~

Uma promessa silenciosa: sem anúncios, apenas substância.


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