O Mundo da Meditação de Ajahn Chah
Ajahn Chah (1918–1992) nasceu em uma grande família de agricultores na região de língua lao do norte da Tailândia. Dos nove aos dezessete anos, viveu como samanera (monge noviço) e, aos vinte, recebeu a ordenação superior. Em 1946, passo...
- Uma Breve Biografia de Ajahn Chah
Ajahn Chah (1918–1992) nasceu em uma grande família de agricultores na região de língua lao do norte da Tailândia. Dos nove aos dezessete anos, viveu como samanera (monge noviço) e, aos vinte, recebeu a ordenação superior. Em 1946, passou um breve período com Ajahn Mun, que lhe transmitiu este ensinamento, capaz de provocar uma profunda realização: "Tudo o que surge na mente, veja-o ali mesmo, no momento presente — isso, por si só, é o verdadeiro caminho da prática."
Nos anos seguintes, Ajahn Chah costumava escolher para a sua prática florestas habitadas por animais selvagens, a fim de superar o medo da morte. Em 1954, foi convidado a voltar para sua cidade natal e fundou o Wat Pa Pong. Seus ensinamentos eram rigorosos e a prática, austera, com o propósito de cultivar a paciência e a determinação dos discípulos. Ajahn Chah não enfatizava nenhum método particular de meditação sentada, nem incentivava a participação em cursos de retiro intensivo. Ao orientar a meditação, primeiro ensinava as pessoas a observar a inspiração e a expiração e, em seguida, a complementar isso com a observação das mudanças corporais e mentais. Manter uma atitude simples e natural diante da vida, aliada à observação da mente, constituía a essência de sua prática.
II. Visão Correta
Soltar o Prazer e a Dor, Soltar o Apego
Desenvolvendo a Mente — O Treinamento do Coração
Mantendo a Consciência
Outros
O espírito da prática em Wat Pa Pong é estabelecer a compreensão correta e aplicá-la com atenção plena em cada tarefa e situação. Esse método de prática também pode ser aplicado em qualquer vida agitada.
Soltar o Prazer e a Dor, Soltar o Apego
Não podemos alcançar a libertação porque ainda nos apegamos à cobiça e ao desejo.
Antes de entrar na verdadeira prática, você precisa ver com clareza o valor de remover o desejo. Só então a prática verdadeira se torna possível.
Das duas aflições — dor e prazer —, a dor é mais fácil de perceber. Por isso, devemos fazer surgir o sofrimento para que possamos pôr fim a ele. (As Quatro Nobres Verdades: "o sofrimento", "a origem do sofrimento", "a cessação do sofrimento" e "o caminho".)
O prazer não é o nosso destino; a dor também não. A paz interior da mente é o nosso verdadeiro destino. Conheça as coisas como realmente são e abandone o apego a todas as condições externas. Tome um coração livre de apego como refúgio.
A cabeça da serpente é o sofrimento; a cauda da serpente é o prazer. Não fale só da cabeça — mesmo que você pegue apenas a cauda, ela se vira e te morre da mesma forma. Prazer e dor, alegria e tristeza — todos surgem da mesma "serpente", o desejo. Assim, quando você está feliz, a mente não está verdadeiramente em paz.
Onde existem o prazer e a dor? Ambos surgem do apego.
É preciso soltar tanto o gostar quanto o desgostar, tanto a dor quanto o prazer. Tudo tem dois lados; é preciso vê-los por inteiro. Então, quando o prazer vier, você não se deixará levar; quando a dor vier, você não perderá a compostura. Quando o prazer surge, você não esquece a dor, porque sabe que um depende do outro.
Ao sentir ódio e ressentimento, pratique a bondade amorosa com a visão correta. Assim, sua mente ficará mais equilibrada e estável.
Uma faca tem lâmina, costas e cabo. Ao pegá-la, você pega as três partes de uma só vez. Pelo mesmo princípio, se você não aprendeu isto (nem o bem nem o mal), não terá a verdadeira realização. Se você pega o bem, o mal vem junto; se pega o prazer, a dor vem junto. Treine a mente até que ela possa transcender o bem e o mal — só então a prática está completa.
Não buscamos o mal, nem buscamos o bem; não buscamos o fardo nem o alívio, nem o prazer nem a dor. Quando nossos desejos chegam ao fim, a paz se firma. O Buda chamou essa realização suprema de "Nibbāna", como o apagar de um fogo.
Se pensamos que o prazer é nosso e a dor é nossa, estamos atraindo problemas, porque jamais conseguiremos saltar além do ponto de "ter algo na mente". Ah! Isso é gostar... Não é nada, é apenas o surgir e o passar de um sentimento.
O prazer é instável; já surgiu muitas vezes. A dor é instável; também já surgiu muitas vezes. Esse é o modo delas — são "apenas isso". Quando você consegue ver as coisas como "apenas isso", elas permanecem "apenas isso". Uma vez que você percebe o apego, não há mais apego nem agarramento. Elas desaparecerão. Há apenas o surgir e o cessar, e isso é paz.
Com base no ensinamento da impermanência, compreendemos que o prazer e o desprazer são ambos inconstantes; em nenhum se pode confiar, pois nada é permanente. Com essa realização, gradualmente deixaremos de acreditar nas diversas emoções e sentimentos que surgem na mente. O mal-entendido diminuirá na medida em que deixamos de acreditar — e esse é o significado de desatar os nós.
Quando a dor surge, ela desaparece. E quando ela desaparece, a dor volta a surgir. Nisso, há apenas o surgimento e o desaparecimento da dor! Tudo não passa de surgimento e cessação: nada é duradouro. Essa visão gera um sentimento de calma e equanimidade para com o mundo. Não vemos o prazer como “nosso”, nem a insatisfação e a infelicidade como “nossas”. Quando deixamos de pensar assim, não nos apegamos mais nem ao prazer nem à dor, e o que resta é tão somente a natureza verdadeira das coisas.
Quando surge a dor? Ela surge exatamente no instante em que tomamos consciência de que obtivemos algo. É aí que a dor reside. Se mantemos a ideia de um “eu”, tudo ao nosso redor passa a ser “meu”, e a confusão se instala.
Todas as coisas não passam de coisas: não são a causa do sofrimento de ninguém. É como um espinho muito afiado: ele te causa dor? Não, é apenas um espinho, não incomoda ninguém. Todas as coisas do mundo são apenas coisas; somos nós que as provocamos. Se as deixarmos em paz, não causarão incômodo a ninguém. Por isso o Buda disse: “Nibbāna é a felicidade suprema.”
Se você ainda tem prazer e dor, é como quem ainda não se saciou. Você deve descartar o prazer e a dor juntos — eles são apenas alimento para quem ainda não se saciou. Na verdade, o prazer é dor disfarçada. Se você se apega ao prazer, é o mesmo que se apegar à dor. Por isso, cuidado! Quando o prazer surgir, não se deixe levar por ele; não seja arrastado. Quando a dor chegar, não se desespere; não se deixe consumir por ela. Perceba claramente que prazer e dor têm o mesmo valor.
Quando você se apega a uma coisa específica, há prazer nela? Ou desprazer? Se há prazer, você consegue se apegar a esse prazer? Se há desprazer, você consegue se apegar a esse desprazer?
Quem enxerga as coisas como elas verdadeiramente são não se deixa nem alegrar nem entristecer por fenômenos mutáveis.
Quando as coisas correm bem, a mente não se alegra; quando as coisas correm mal, a mente não se entristece.
O ensinamento budista consiste em abandonar o mal e cultivar o bem. E quando o mal já foi abandonado e o bem já está estabelecido, devemos deixar ir tanto o bem quanto o mal.
A prática serve para deixar ir tanto o certo quanto o errado; no fim, descarte tudo.
Não se apegue ao bem; não se apegue ao mal — eles fazem parte da natureza do mundo. Praticamos para transcender o mundo, encerrando assim essas questões.
Se for bom, não se apegue a ele; se for mau, não se apegue a ele. Tanto o bem quanto o mal podem morder as pessoas, por isso não se apegue a eles.
O desejo por prazer chuta de um lado, enquanto a dor e a insatisfação chutam do outro. Esses dois lados vêm nos cercando o tempo todo. O Buda nos ensinou a deixar ir ambos os lados sem cessar — este é o caminho correto da prática, o caminho que nos liberta do “nascimento” e do “devir”. Nesse caminho, não há nem prazer nem dor, nem bem nem mal.
Se agimos apenas para receber algo em troca, isso só gera sofrimento. A prática não é mais sobre ganhar algo; é sobre deixar ir!
Se você não abandonar suas preferências e aversões, ainda não fez um esforço verdadeiro. Não deixar ir mostra que, mesmo que você busque a paz, não a encontrará. Vá e experimente essa verdade por si mesmo!
O ensinamento supremo da meditação budista sentada é “deixar ir”. Não se apegue a nada! Separe-se!
Deixe espaço; não se apegue às coisas; segure, mas não se apegue. Segure apenas o tempo suficiente para considerá-la, compreendê-la, e depois deixe-a ir. Você não precisa saber tudo. Para os praticantes do Dharma, apenas isso já basta: saber, e depois deixar ir.
Treine a mente até que ela esteja firme, até que solte todas as experiências. Então, as coisas surgirão, mas você terá consciência delas sem se apegar. Não é preciso forçar a separação entre mente e objetos externos. Conforme você pratica, eles se separarão por si mesmos, revelando os elementos básicos do corpo e da mente.
Separar os cinco agregados da aflição (impureza) e do apego é como limpar o sub-bosque de uma floresta sem derrubar as árvores. Tudo simplesmente surge e passa continuamente — as aflições não encontram onde se firmar. Simplesmente nascemos e morremos junto com os cinco agregados — eles vêm e vão segundo sua natureza.
Toda boa prática deve, em última instância, voltar a uma única essência — o não-apego. No fim, é preciso soltar todos os métodos de meditação, até mesmo o professor. Se um método pode nos guiar a soltar, ao não-apego, então essa é a prática correta.
Até mesmo a concentração (quietude) não deve ser objeto de apego.
Solte tudo — todo agarro e todo julgamento. Ponha de lado. Não tente se tornar algo. Então, nessa quietude, você consegue atravessar toda a ilusão do eu; absolutamente nada nos pertence. Quando nossas mentes estão quietas e despertas, alcançamos de modo natural e livre esse estado de despertar. Não há um eu permanente; não há nada dentro de nós. É tudo apenas o jogo da consciência!
Se você não "quer", então não praticará; mas se pratica por causa do desejo, não verá o Dharma. Praticamos com desejo; se não tivéssemos desejo, não praticaríamos. "Concepção" e "transcendência" coexistem. É como um coco — a polpa, a casca externa e a casca dura estão todas juntas. Quando compramos um coco, compramos tudo junto; se alguém quiser nos criticar por comer a casca dura do coco, é problema dessa pessoa. Sabemos o que estamos fazendo.
Meditar sentado não é sobre "ganhar" nada, mas sobre "remover" tudo.
"Nascemos" no exato momento em que pensamos nas coisas como "minhas" — surgimos a partir do "vir a ser". Tudo aquilo a que nos apegamos, nós "somos" e existimos naquele momento.
"Existência" significa "o reino do vir a ser": o desejo dos sentidos nasce em formas, sons, cheiros, sabores, tangíveis e objetos mentais. Identificamo-nos com essas coisas, e a mente agarra e se apega firmemente ao desejo dos sentidos.
Compreenda que tudo o que surge na mente é mera sensação. São breves e mutáveis; surgem, existem e desaparecem. Simplesmente isso. Não têm eu nem ser; não são "nossas" nem "deles". Não valem o apego — absolutamente nada vale o apego.
Se há agarro, isso se chama "nascimento". Tanto o nascimento quanto a morte se fundam no apego às "formações" e na permanência nelas.
Se você se apega ao sentimento de raiva por alguém, sentirá raiva. Que tipo de prática é essa?
Se você quer continuar vivendo, isso só lhe trará sofrimento. Mas querer morrer imediatamente, ou querer depressa — isso também não é sofrimento?
O coração de quem pratica não se dispersa, mas permanece em seu lugar. Quando o bem e o mal, a alegria e a tristeza, o certo e o errado surgem, ele tem consciência de todos eles. O meditador simplesmente os conhece, mas não permite que eles "molhem" seu coração; em outras palavras, ele não se apega a nenhum deles.
Se alguém nos amaldiçoa, mas não temos senso de eu, a questão termina nas palavras, e não sofremos. Se uma sensação desagradável surge, devemos deixá-la parar ali, conscientes de que não somos essa sensação.
Ninguém pode ensinar isso (a verdade) a você. Somente quando a "mente" chega a conhecê-la por si mesma é que pode extinguir e abandonar o apego.
O desejo está sempre presente; é simplesmente um estado da mente. Uma pessoa sábia também tem desejo, mas sem apego.
Desenvolvendo a Mente — O Treinamento do Coração
É como cair de uma árvore — antes de entendermos o que está acontecendo — "Tum!" — já batemos no chão. (O processo da queda não é claro.) Isso é o mesmo que os Doze Elos da Origem Dependente. O sofrimento que experimentamos diretamente é o resultado de termos passado por toda a cadeia dos doze elos. É por isso que o Buda exortou seus discípulos a examinar e conhecer de todo as próprias mentes, para que pudessem se dar conta antes de "bater no chão".
Não faça apenas o que você gosta; não mime seus pensamentos. Pare com esse seguir cegamente. É preciso bloquear continuamente esse fluxo de ignorância — é isso que se chama "treinamento".
Se você não contrariar a própria mente, simplesmente segue as emoções. Esse tipo de prática está errado, como atender a todo capricho de uma criança. Com o próprio coração, o treino precisa ser igual: nada de mimos aos seus caprichos.
Treine-se com o Dharma, em vez de ceder à indulgência emocional!
O cerne do treinamento está em observar as próprias intenções e examinar a mente.¹ Se treinarmos essa mente a cultivar vergonha e temor do erro, exerceremos restrição; seremos cautelosos... Uma vez assim, nossa atenção plena se fortalece, e conseguimos mantê-la a todo momento.
Mas leia o próprio coração.
As responsabilidades do meditador são atenção plena, calma e contentamento. Elas podem pôr fim aos hábitos da nossa "mente não treinada".
No treinamento da mente, não se apegue a elogios nem a culpas. Nossos hábitos mantêm o coração instável — esses padrões nos acompanham desde ações passadas, perturbando-nos a cada passo. Só uma mente livre de aflições pode estar verdadeiramente em paz. É preciso olhar para dentro, examinando as faltas cometidas pelo corpo, pela fala e pela mente. Fora do próprio corpo, fala e mente, onde mais você poderia praticar?
Fortalecer a mente significa acalmá-la, impedir que vagueie em pensamentos ociosos. Uma mente em paz encontra o equilíbrio certo. Se você atingiu um estado de equanimidade, aceite-o; se não consegue encontrar paz, aceite isso também — o coração é assim mesmo. Cada um precisa encontrar o próprio caminho de prática e mantê-lo com constância.
O treinamento focado estabiliza a mente e a torna resiliente. Esse tipo de prática conduz a uma calma interior profunda. Um coração que foi contido, refreado e treinado com constância colherá benefícios imensuráveis.
Não se deixe levar pelos humores. Esteja com preguiça ou cheio de energia, continue — seja na meditação sentada, andando ou até deitado, observe a respiração. Falar de prática sem de fato praticá-la nunca o levará a lugar nenhum, mas forçar demais fracassará com a mesma facilidade, e nem tentar, obviamente, também não dá resultado! Um esforço constante ao longo do tempo vale muito mais do que explosões curtas de motivação intensa. Praticar dia após dia, mês após mês, ano após ano — essa é a verdadeira habilidade.
A prática certa é uma prática sem interrupções e constante. A prática precisa ser contínua; isso quer dizer que ela, incluindo a meditação sentada, acontece na mente, não no corpo. Quando a meditação sentada termina, não ache que acabou — reconheça que você apenas mudou de postura. Se refletir assim, encontrará tranquilidade. É isso que chamamos de prática constante.
Façam o esforço! Todos vocês devem se empenhar em seguir o caminho da prática — isso é treinar. Quando estiver com preguiça, pratique; quando estiver diligente, pratique; mantenha-se claramente atento ao tempo e ao lugar — isso se chama "desenvolver a mente".
Às vezes a meditação sentada vai bem, outras não. Não precisa se preocupar — basta continuar. Conforme você persiste na prática, a concentração surge por conta própria; então use-a para cultivar sabedoria. Veja com clareza que alegria e aversão nascem do contato sensorial, e não se apegue a elas. Não anseie por resultados nem por progresso rápido — o bebê primeiro engatinha, depois anda, depois corre. Apenas fortaleça sua virtude e continue praticando com constância.
É assim que lentamente encontramos o nosso próprio caminho: puxamos a rede com cuidado, sem deixar nada escapar. Continuamos a avançar tateando o caminho — isso é a prática. Se gosta, faça; se não gosta, faça de qualquer forma — só continue. Esta é a nossa abordagem da meditação.
A prática assenta em poucos desejos e contentamento. Se tem energia, pratica; quando está com preguiça, ainda assim pratica.
Quer se sinta com vontade de praticar ou não, pratica da mesma forma. Quer esteja feliz ou infeliz, pratica da mesma forma. Se está confortável, pratica; se está doente, pratica mesmo assim. É por isso que os praticantes de outrora mantiveram um treino contínuo do coração. Se algo não parecer bem, deixe que fique apenas no corpo!
O esforço correto não consiste em forçar um resultado especial. É o esforço de permanecer desperto e atento em cada momento, o esforço que supera a preguiça e as impurezas mentais, o esforço que mantém todas as atividades do nosso dia dentro do espaço da meditação.
Observe com constância o que se passa no momento presente. Quando começa a praticar, a atenção plena surge de forma entrecortada, como gotas a caírem de uma torneira. Mas se perseverar com aplicação diligente ao longo do tempo, os espaços entre as gotas acabarão por desaparecer, e terá um fluxo contínuo. Esse fluxo constante de atenção plena é exatamente o objetivo para o qual trabalhamos.
Se for preguiçoso e desmotivado, quando é que o sofrimento alguma vez terá fim? Se for preguiçoso e desmotivado, o que conseguirá alguma vez alcançar? Construa a sua prática — transcenda a preguiça!
Se apenas ouvir os ensinamentos sem os colocar em prática, é como uma concha deixada todos os dias na panela de sopa: está rodeada de sopa, mas não sabe nada do seu sabor.
Não consegue entender verdadeiramente nada apenas por ouvir falar. Depois de ouvir os ensinamentos, tem de os testar e explorar por si próprio. Ninguém mais pode fazer este trabalho por si, e apenas ouvir os outros falar não chega para cortar as suas dúvidas. A única forma de cortar as dúvidas é deixar ir tudo completamente e experimentar por si próprio.
Quando a nossa prática começa a enfraquecer, temos de vigiar a mente de imediato, estabilizando-a. Depois de algum tempo, a mente retoma o rumo certo, mas acaba por se desviar novamente — é assim que a mente nos mantém presos. Mas uma pessoa com atenção plena fortalecerá a sua determinação, reconstruindo-se continuamente desde os alicerces. Volte atrás, tente de novo, treine de novo, e use este método para se desenvolver.
Não consegue percorrer o caminho do Dhamma apenas com o corpo — tem de o percorrer com a mente para usufruir do seu benefício.
Para os budistas, a meditação sentada diz respeito à mente: ela existe para desenvolver a sua própria mente. Quem pratica e desenvolve a sua mente está a colocar o Dhamma em prática.
O Dhamma surge na própria prática. Os ensinamentos apenas apontam o caminho para a compreensão: se quiser entender o Dhamma, tem de incorporar esses ensinamentos no seu próprio coração.
Apenas este corpo está trancado na prisão — não deixe que o seu coração também fique trancado.
Mantendo a Atenção
Nossas impurezas mentais são como fertilizante para a prática. É como usar coisas sujas, como esterco de galinha e de vaca, para adubar nossas árvores frutíferas — e os frutos ficam mais doces e abundantes. Há felicidade dentro do sofrimento; há paz dentro da confusão.
Se usadas com habilidade, as impurezas mentais são incrivelmente úteis. É como misturar esterco de galinha ou de vaca na terra para ajudar um mamoeiro a crescer. Por exemplo: quando a dúvida surge, olhe diretamente para ela, examine-a naquele exato momento — fazer isso ajudará sua prática a crescer e dar frutos doces.
As pessoas costumam pensar que, se forem para algum lugar onde nada nunca acontece, encontrarão a paz. Mas, na verdade, se vivêssemos em um lugar muito silencioso onde nada surgisse, a sabedoria surgiria? Estaríamos atentos a algo? Onde as coisas surgem, ali está a causa — onde a causa surge, é ali que devemos prestar atenção.
O melhor é praticar com a mente equilibrada e serena. Se nada está incomodando você, não há necessidade de consertar nada; mas quando os problemas surgem, é preciso resolvê-los ali mesmo! Viva com a mente equilibrada — não há necessidade de sair em busca de nada especial. Mantenha-se atento, mantenha-se alerta! Quando nada está acontecendo, tudo bem, mas quando as dificuldades surgem, é preciso direcionar a mente para elas, segurar-se na visão correta, e naturalmente você conseguirá resolver tudo.
Em tudo o que você faz, é preciso estar plenamente atento, com o coração completamente lúcido. Quando você vê as coisas com clareza, não há necessidade de se forçar ou se pressionar. Só nos sentimos travados e sobrecarregados porque não entendemos esse ponto!
A prática é apenas sobre o coração e o que o coração sente — não é algo que precisamos perseguir ou lutar para obter. Tudo o que você precisa fazer é tentar permanecer desperto.
Na prática, quando você faz a meditação caminhando, proponha-se plenamente a andar; quando se senta em meditação, concentre-se apenas nisso. Seja andando, em pé, sentado ou deitado, esforce-se para permanecer calmo e presente.
Praticar o Dhamma não exige que você saia procurando por toda parte nem que se esgote tentando alcançá-lo — você apenas observa os diferentes sentimentos que surgem em sua mente: quando o olho vê a forma, o ouvido ouve o som, o nariz sente o aroma, a língua prova o sabor, e assim por diante — todos eles vêm para este coração, um coração lúcido e desperto.
Onde esses sentimentos surgem é onde podemos despertar, onde a sabedoria pode nascer.
Quando as bases sensoriais e seus objetos entram em contato, transmitem isso rapidamente à consciência; depois que a consciência examina e inspeciona minuciosamente, ela retorna ao centro — é assim que permanecemos. Cultive uma conduta alerta e lúcida, observando constantemente com sabedoria, e dessa forma nossa prática se completa. Conhecer com clareza, a todo momento, as reações da mente aos objetos é muito importante. Compreenda como elas vêm e vão, como aparecem e desaparecem — tudo isso precisa ser plenamente compreendido. Assim como uma aranha aprisiona diversos insetos em sua teia, a mente reúne pensamentos com a teia da impermanência, do sofrimento e do não-eu. Isso é alimento para o nosso coração, alimento para quem está desperto.
Se conseguimos permanecer despertos com frequência, nossa atenção será como aquele fluxo contínuo de água; mas, se o nosso coração vagueia, nossa atenção será apenas como aquelas gotas que pingam.
Despertar não significa aversão ao mundo — significa que o coração vê com clareza, compreendendo que as coisas não podem ser consertadas, que o mundo sempre foi assim. Compreendendo isso, você abandona o apego, liberando-se com um coração que não está nem alegre nem triste, observando com sabedoria, compreendendo o fluxo natural de "todas as coisas condicionadas", e permanecendo na quietude.
Outros
Seu dever é praticar — seja seu progresso rápido ou lento, simplesmente reconheça-o como é; não tente forçá-lo. Essa abordagem da prática lhe dará uma base sólida.
As três práticas essenciais para colocar em ação são: controle dos sentidos, moderação na alimentação e vigilância. Para um meditador, o perigo vem dos objetos sensoriais externos, e é por isso que o controle dos sentidos é necessário — na verdade, ele é a maior das virtudes. Jejuar constantemente é muito menos valioso do que aprender a comer com atenção, tomando apenas o que você precisa, e aprendendo a distinguir entre "desejo" e "necessidade". Para cultivar a vigilância, você precisa continuar se esforçando, assim como a respiração, que precisa continuar não importa a situação.
A verdade da impermanência é a coisa mais simples do mundo, e ao mesmo tempo a mais profunda.
Se tivermos atenção plena, veremos a impermanência em todas as coisas; veremos o Buda e transcenderemos o sofrimento da existência cíclica.
Incerto! Como poderia ser de outra forma? Tudo é assim!
Sempre que algo surge em seu coração, goste você disso ou não, pareça certo ou errado, simplesmente o corte com o pensamento "isso é incerto". Essa incerteza é verdadeiramente essencial — é o que desenvolve a sabedoria.
Impermanência e paciência — é assim que nos aproximamos dos ensinamentos do Buda... Impermanência: tudo é incerto! Essa incerteza, essa natureza fugaz e sempre mutável!
Quando falamos de impermanência a partir do coração, levando em conta a verdade, a mudança e a incerteza do mundo — isso se chama ter uma fala de Dhamma no coração.
Nossas casas, nossas famílias, nossa riqueza são apenas convenções sociais. Do ponto de vista do verdadeiro Dhamma, nenhuma delas é nossa — nem mesmo este corpo é verdadeiramente nosso. Só porque imaginamos que sim não significa que seja assim. É como pegar um punhado de areia e concordar em chamá-lo de sal: isso o torna sal? Ah, claro, você pode chamá-lo assim — mas apenas no nome, não na substância. Imaginar que a areia é sal não a torna sal.
Esta é a natureza do Nibbāna: é a extinção do fogo, o esfriamento do calor; é paz, a cessação do ciclo de nascimento e morte. É o fim permanente da cobiça, do ódio e da ilusão em nossos corações. Ele transcende o prazer e a dor — é completa tranquilidade.¹
Onde a confusão surge é onde a paz pode surgir; onde quer que haja confusão, por meio da sabedoria, a paz também se encontra.
O lugar onde o sofrimento existe é exatamente onde o fim do sofrimento pode surgir — ele cessa exatamente onde nasce. Se o sofrimento surge, você tem que trabalhar com ele ali mesmo; não precisa fugir. Você deve resolver o problema ali no momento. Fugir dessas coisas não é praticar de acordo com o verdadeiro Dhamma. Quando é que você verá, afinal, a verdade do sofrimento?
Quanto mais dúvidas tenho, mais me sento em meditação, mais pratico. Qualquer dúvida que surja, pratico exatamente naquele ponto.
A prática surge quando você tenta contrapor as aflições mentais (impurezas), quando se recusa a alimentar velhos hábitos. Onde o conflito e a dificuldade surgem, é ali que você precisa trabalhar.
Não pense que a meditação só acontece quando você está sentado ou andando — tudo, em qualquer lugar, é prática.
A prática real acontece onde o coração encontra os objetos sensoriais. O ponto de contato com os sentidos é onde a prática se realiza.
Nosso descontentamento vem da visão errada. Porque não restringimos nossos sentidos, culpamos o mundo exterior por causar nossa dor. Uma vez que abandonemos por conta própria a visão errada, ficaremos contentes não importa para onde vamos.
O controle dos sentidos sozinho, embora essencial, não é suficiente. Não importa o quanto você controle o olho, o ouvido, o nariz, a língua, o corpo e a mente, sem a sabedoria para compreender a verdadeira natureza do desejo, a libertação é impossível.
O Buda ensinou o controle — mas isso não significa que não olhamos para nada, não ouvimos nada, não cheiramos, não provamos, não tocamos ou pensamos em nada. Não foi esse o sentido.
Se você se agarra aos sentidos, é como um peixe no anzol.
Precisamos ver as coisas como elas são de fato: sentimentos são apenas sentimentos, pensamentos são apenas pensamentos. É assim que acabamos com todos os nossos problemas.
A calma é o alicerce de onde brota a sabedoria, e a sabedoria é o fruto que a calma faz emergir. O que te faz sofrer não é o corpo, mas as tuas visões equivocadas. Quando te enganas, ficas confuso. Na nossa prática, precisamos firmar a concentração antes que a sabedoria possa surgir. Uma mente focada é como um interruptor de luz: a sabedoria é a luz que se acende em seguida; a concentração é como uma tigela vazia: a sabedoria é o alimento que se deposita dentro dela. Sem tigela, não há onde colocar o alimento. No fundo, a prática do Dhamma se resume a corrigir as tuas visões.
Mesmo que tenhamos estudado e praticado o Dhamma mas ainda não vejamos a verdade, somos apenas andarilhos sem um lar para chamar de nosso. O propósito da meditação não é apenas acalmar a nós mesmos e nos livrarmos da preocupação e do sofrimento: é ver claramente e cortar de vez as causas que nos impediam de ficar calmos desde o início.
Já viste água que flui e água que está parada, não é? Quando a tua mente está tranquila, a sabedoria pode desabrochar. A tua mente será como água que flui, mas ao mesmo tempo parada. Ainda que se mova, quase parece não se mover, por isso a chamo de “água que flui e está parada”. É aí que a sabedoria pode surgir.
Não te queixes de o poço ser muito fundo: volta-te e olha para o teu próprio braço. Se conseguires perceber isso, avançarás no caminho espiritual e encontrarás a felicidade.
Se o jhana surgir na tua prática, tudo bem: só não te apegues a ele. Para quem medita, o maior perigo é o jhana — a calma profunda e sustentada, o samadhi. Nesta fase, o samadhi pode se tornar um inimigo, pois sem um discernimento claro entre o certo e o errado, a sabedoria não pode surgir.
Se a tua mente alcança a calma e a concentração, tens uma ferramenta muito útil. Mas se te sentas só para alcançar a concentração a fim de sentires alegria, estás a perder o teu tempo. A prática consiste em sentar-se e levar a mente à imobilidade e à concentração, para depois usá-la a examinar a natureza do corpo e da mente — para os ver com mais clareza.
O mesmo vale para a meditação sentada: a mente pode estar calma, mas as impurezas não se instalaram de fato. Por isso não podes confiar no “samadhi”. Para encontrar a paz verdadeira, deves desenvolver a sabedoria. O samadhi é uma calma temporária, como uma pedra que pressiona a relva.
A compaixão é a essência da generosidade, da bondade e da vontade de ajudar. Elas são o alicerce de um coração puro.
Quando a tua conduta moral é pura, a honestidade e a compaixão pelos outros surgem de forma natural.
Não te irrites com pessoas que não praticam, e não fales mal delas. Só continua a aconselhá-las. Quando os seus corações se abrirem, elas se encaminharão para o verdadeiro Dhamma.
Quem está doente deve lembrar-se daqueles que mostram cuidado compassivo, e suportar a dor com paciência. Faz bom uso da tua própria energia mental; não deixes que a mente se disperse. E não aumentes o fardo daqueles que cuidam de ti: deixa que aqueles que atendem aos doentes despertem a compaixão e a virtude nos seus próprios corações.
Não há nada de errado no fato de o corpo envelhecer e adoecer; ele está apenas seguindo a sua própria natureza. Por isso não é o corpo que nos faz sofrer, mas o pensamento errado. Quando nos equivocamos, ficamos presos à confusão.
Mesmo o Buda e os seres nobres enfrentaram a doença por processos naturais e trataram-na com a medicina apropriada. Se cura, cura; se não cura, não cura.
Somos apenas visitantes deste corpo, como hóspedes em um salão: ele não nos pertence de fato, somos apenas hóspedes temporários. O Buda ensinou que não há um eu permanente dentro deste corpo.
Mantém a morte e a decadência sempre presentes na tua mente, e o desencantamento com os prazeres sensoriais do mundo surgirá, levando à concentração e ao samadhi.
Não te inquietes com a iluminação. Quando plantas uma árvore, tu a plantas, a regas, a adubas e eliminas as pragas. Se fizeres tudo isso direito, a árvore crescerá naturalmente. A velocidade do seu crescimento não é algo que possas controlar. No começo, a paciência e a perseverança são essenciais, mas com o tempo, a fé e a determinação surgirão. Então verás o valor da prática, e continuarás.
Não importa se eu durmo até tarde ou não: no instante em que acordo, levanto-me logo. Não faças uma grande questão do sono: apenas corta isso de vez.
Qualquer ensinamento que fale de reduzir as impurezas, que leve à libertação do sofrimento, que mencione a renúncia aos prazeres sensoriais, o contentamento com pouco, a humildade e a indiferença ao status social, o isolamento e a solitude, o esforço diligente, a vida descomplicada — estas oito qualidades são as marcas do verdadeiro Dhamma, o ensinamento do Buda.
O “superficial” obstrui o “transcendente”, impedindo as pessoas de verem com clareza. Se deixares o “superficial” emergir e revelar o “transcendente”, alcançarás a verdade e verás com clareza; cortarás o “superficial” e com ele o apego.
Olha! Este “eu” não passa de uma aparência. Deves descascar a aparência para chegar ao núcleo — isso é o “transcendente”! Vai além do “superficial” para encontrar o “transcendente”.
Se gastas no máximo dez por cento do teu tempo a olhar para os outros, e noventa por cento a olhar para ti mesmo, essa é a prática.
III. Ajustando o Corpo (Respiração)
Quando nos sentamos em meditação, simplesmente prestamos atenção à respiração. Não tente controlá-la. Se a forçarmos, fazendo-a longa ou curta demais, não encontraremos equilíbrio nem tranquilidade mental. Precisamos deixar a respiração acontecer naturalmente. Não se preocupe se ela é longa ou curta, fraca ou forte — apenas esteja consciente dela. Simplesmente a deixamos seguir sua própria natureza, e nós acompanhamos.
Não force a respiração para que fique mais longa ou mais curta que o normal. Apenas deixe-a continuar como de costume.
Coloque sua atenção na respiração. Ao observá-la, não a torne deliberadamente longa ou curta, forte ou fraca. Apenas deixe-a entrar e sair em ritmo natural. Relaxe; não pense em nada. Não há necessidade de pensar nisso ou naquilo — a única coisa a fazer é colocar sua atenção na inspiração e na expiração, percebendo o início, o meio e o fim de cada respiração. Ao inspirar, a respiração começa na ponta do nariz, desce até o coração e termina no abdômen. Ao expirar, é o contrário. Desenvolva a consciência da respiração: uma no nariz, duas no coração, três no abdômen. Reunir a atenção nesses três pontos resolverá todas as suas preocupações.
Mantenha a consciência da inspiração e da expiração. Não se angustie porque a respiração está longa ou curta demais; apenas a observe. Não tente controlá-la ou suprimi-la de forma alguma; não se apegue.
Ao inspirar, respire plenamente e, em seguida, solte-a. Não controle deliberadamente a respiração. Não importa se ela é longa ou curta. Apenas sente-se e perceba a entrada e a saída naturais da sua respiração; isso é suficiente.
Ao caminhar, ficar de pé, sentar e deitar, mudamos continuamente de postura. Usamos essas posturas na vida cotidiana, portanto devemos desenvolver a consciência em cada uma e colocá-las em bom uso.
Quando estamos calmos, a respiração se torna sutil, o corpo se torna leve e a mente se torna serena. Tudo está exatamente certo. Continue! Até que pareça que você está sentado sem inspiração nem expiração alguma! No entanto, você continua vivo. Não tenha medo e se afaste, pensando que a respiração parou. Esteja plenamente lúcido diante de cada processo que ocorre e não se deixe enganar por nenhuma das condições que surgem.
Se a respiração é grosseira, sabemos que é grosseira. Se é sutil, sabemos que é sutil. À medida que se torna mais sutil, nós a seguimos mais de perto, mantendo a mente desperta. Por fim, a respiração desaparece por completo, e tudo o que resta é a sensação de saber claro e consciência. Isso se chama "ver o Buda".
Se quiser mudar de postura, suporte a dor até o seu limite máximo antes de fazê-lo! Se a dor se tornar tão grande que você não consiga mais sustentar o mantra Buddho na mente, deixe que a dor se torne o objeto da sua consciência. Deixe "dor" substituir "Buddho". Use esse método até que a dor desapareça e veja o que acontece. Mas isso vem gradualmente. Não se force demais; apenas continue devagar e com constância.
Quando você se senta corretamente, não há necessidade de medir ou forçar. Sentar-se em meditação não tem objetivo, não tem destino. Não preste atenção ao tempo. Simplesmente deixe sua prática manter um ritmo constante e crescer de forma gradual. Com o tempo, você descobrirá que consegue sentar-se confortavelmente por longos períodos e praticar corretamente.
Ao praticar a meditação andando, tentamos perceber continuamente a sensação dos pés tocando o chão.
IV. Ajustando a Mente
Uma mente fora de controle é como um macaco inquieto, saltando de um lado para o outro sem atenção. Você precisa aprender a controlá-la, a enxergar a verdadeira natureza da mente: impermanente (passageira), sofrimento (insatisfatória) e vazia (sem essência). Não a deixe simplesmente saltar por aí — aprenda a ser seu mestre. Amarre-a e depois deixe-a se esgotar até morrer. Assim você terá um "macaco morto", e no fim estará em paz.
Na prática do Dhamma, não precisamos agir contra os outros; pelo contrário, conquistamos a nossa própria "mente". Com paciência, acolhemos e resistimos a todas as nossas emoções.
Neste momento, sua única responsabilidade é focar a mente e trazê-la à calma.
O elemento básico da meditação sentada é a atenção contínua à respiração presente, para que você possa estar atento a cada inspirar e expirar à medida que ocorrem.
Comece a meditação sentada sabendo com clareza: neste momento, sua única responsabilidade é observar o inspirar e o expirar.
Se a sua atenção se desvia da respiração para outra coisa, a atenção se rompe. Sempre que há atenção à respiração, a mente está exatamente ali. Permaneça com a respiração e com essa atenção firme e contínua, e sua mente estará no momento presente.
Se a sua atenção se desloca para outras coisas, tente trazê-la de volta para o objeto de foco. Tente soltar todos os outros pensamentos e preocupações. Não pense em nada — apenas observe a respiração.
Não deixe isso (a atenção à respiração) escapar. Se escapar, pare! Veja para onde foi. Encontre-a e traga-a de volta.
Mesmo que alguém esteja "fazendo um show com espíritos e truques", esse é o assunto dele; não se deixe perturbar por isso. Simplesmente foque na entrada e na saída da respiração. Apenas esteja atento à sua respiração; isso basta. Se você fizer isso com perseverança, a respiração se tornará fina e leve, e o corpo e a mente ficarão suaves e à vontade. Não haverá confusão, nem sonolência, nem cochilo. Tudo se torna fácil e relaxado. Nesse momento, você está em paz!
Pensamentos de saber ou ver algo podem surgir durante a meditação sentada, mas, uma vez que apareçam, deixe-os desaparecer por conta própria. Não preste muita atenção a eles.
Seja qual for o sentimento ou emoção que surja na mente durante a meditação sentada, solte-o. Não importa se essas emoções são boas ou ruins. Não há necessidade de lhes dar atenção; basta deixá-las desvanecer e devolver a sua atenção à respiração.
O exame na meditação sentada é o exame de "cultivar" e "soltar". Por "exame" entendo: sempre que a mente experimenta um sentimento, ainda estamos apegados a ele? Ainda estamos criando problemas em torno dele? Ainda sentimos prazer e aversão em relação a ele? Em termos simples: ainda estamos perdidos em nossos pensamentos? Se estivermos apegados a qualquer coisa, percebemos que estamos apegados; sabemos em que estado nos encontramos e nos esforçamos para nos corrigir.
Solte tudo, exceto a atenção. Ao sentar-se, não se deixe enganar pelos pensamentos ou vozes na sua mente. Deixe tudo ir; não se apegue. Permaneça simplesmente na atenção "não-dual". Não se preocupe com o passado nem com o futuro. Você alcançará um estado que não é para frente nem para trás, onde nada permanece — onde não há nada a que agarrar ou se apegar. Por quê? Porque, originalmente, não há eu. Não há "eu" nem "meu"; tudo é vazio. O Buda nos ensinou a usar esse método para esvaziar tudo, para que nada nos prenda. Compreenda isso e, então, solte!
Mesmo que se descubra pensando, tudo bem, contanto que você pense com sabedoria, conhecendo a verdadeira natureza do pensamento. Se você compreende as coisas com sabedoria, pode soltá-las sem sofrimento. Nesse momento, a mente é luminosa, feliz e calma, livre de toda perturbação. A mente está concentrada. O que pode te ajudar e sustentar agora é a respiração.
Deixe a mente calma permanecer com a respiração; deixe a respiração ser o único objeto de atenção. Reúna sua atenção até que a mente se torne cada vez mais sutil, até que os sentimentos não importem mais e a mente permaneça clara e atenta.
«Ah! Foi esse som que me perturbou.» Se acreditarmos que um som nos perturbou, acabaremos sofrendo por isso. Se olharmos com mais atenção, veremos que fomos nós que saímos para perturbar o som.
Quando o ouvido capta um som, examine a mente: ela se deixou absorver pelo som e passou a reagir? Foi perturbada? Se você perceber isso, simplesmente fique ali e mantenha a consciência atenta. Às vezes você pode sentir vontade de fugir do som, mas essa não é a solução: você deve, por meio da atenção plena, encontrar a liberdade.
Você deve se esforçar para manter a atenção plena e tentar trazer a mente de volta. Pode parecer que você está puxando a mente de volta, mas na verdade ela nunca saiu do lugar — apenas o objeto da sua consciência mudou.
A concentração é muito semelhante à respiração: se você decidir forçar a respiração a ser profunda ou superficial, rápida ou lenta, respirar se torna muito difícil. Da mesma forma, qualquer tentativa de forçar a si mesmo a ficar calmo é, em si, uma forma de apego e desejo, e só irá atrapalhar a estabilização da sua atenção.
Se a mente estiver perturbada, ative a atenção plena: depois inspire profundamente até encher os pulmões completamente. Em seguida, solte o ar completamente, sem reter nada. Faça isso duas ou três vezes, depois restabeleça sua concentração — a mente então ficará calma.
As afeições (impurezas) são como um gato selvagem vadio: se você lhe der toda a comida que ele quiser, ele sempre aparecerá por perto pedindo mais. Mas se parar de alimentá-lo, depois de alguns dias ele deixará de voltar.
Observe e cuide da mente com atenção plena. Não importa em que estado a mente esteja, mantenha essa atenção plena — não deixe que ela se disperse ou se perca em todas as direções.
Durante a meditação sentada, você pode ter experiências estranhas ou visões, como ver luzes, anjos ou Budas. Quando isso acontecer, primeiro examine o estado da sua mente para discernir em que condição ela se encontra. Você deve considerá-las como não-eu, pois todas são impermanentes, são sofrimento e não-eu. Embora elas surjam, não há necessidade de dar a elas muita atenção. Se não desaparecerem, basta ativar a atenção plena novamente, direcionar o foco para a respiração e dar pelo menos três respirações profundas; assim você conseguirá dissipá-las. Mantenha o foco. Não espere que visões apareçam, nem espere que elas não apareçam.
Feche os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua e o corpo, deixando apenas a mente. O que se entende por “fechar” é reunir essas cinco faculdades dos sentidos, de forma que só a mente reste para ser observada.
Com a atenção plena supervisionando e controlando a mente, quando mente e atenção plena estiverem unidas, uma nova consciência surgirá. A mente, uma vez calma, é contida por essa própria calma, assim como uma galinha trancada em um galinheiro. A galinha não pode sair correndo para fora, mas ainda pode se mover dentro do galinheiro. Suas idas e vindas não causam problemas, pois ela está confinada dentro do galinheiro. Da mesma forma, quando a mente tem atenção plena e está calma sem causar transtornos, o despertar que surge é semelhante: as sensações surgem dentro desse estado de calma, e a mente experimenta tanto a sensação quanto a calma ao mesmo tempo, sem se deixar perturbar. Os problemas surgem apenas quando a “galinha” escapa do “galinheiro”. Por exemplo: você pode estar observando a ida e volta da respiração, até se esquecer de si mesmo e deixar a mente se afastar da respiração para vagar — assim, a mente se afasta da sua base de calma.
A atenção plena é a consciência do momento presente, o conhecer e o despertar para o que está aqui e agora. O entendimento claro e lúcido percebe o que acontece no presente. Quando a atenção plena e o conhecimento claro trabalham juntos, sua companheira — a sabedoria — sempre os ajudará a concluir o que for necessário.
A atenção plena é o poder da lembrança; o conhecimento claro é o despertar interior. Quando há atenção plena e conhecimento claro, o entendimento surge naturalmente; e sabemos o que está acontecendo.
"Mindfulness" e "claro saber" devem existir simultaneamente. "Mindfulness" é o poder da recordação; "claro saber" é o autodespertar. No momento presente, você está claramente ciente da respiração. Essa prática de observar a respiração ajuda "mindfulness" e "claro saber" a crescer juntos; eles dividem o trabalho e cooperam. Quando há "mindfulness" e "claro saber", a panna (sabedoria) surgirá nesse mesmo lugar para auxiliar. Assim, os três se apoiam mutuamente.
Você pode começar a pensar em um amigo, ou ter pensamentos sobre onde irá amanhã. Na meditação sentada, encare essas coisas como "instável, instável" e continue com essa atenção. Você precisa abandonar todos os pensamentos — o diálogo interno e as dúvidas. Na meditação sentada, não permita que essas coisas o prendam. No fim, apenas as formas mais puras de "mindfulness", "claro saber" e panna permanecem na mente. Tente cultivar o mindfulness até que possa mantê-lo continuamente em todos os momentos. Assim, você compreenderá plenamente "mindfulness", "claro saber" e panna.
Sente-se com as pernas cruzadas: coloque a perna direita sobre a esquerda, a mão direita sobre a esquerda, mantenha as costas retas e então diga a si mesmo: "Agora vou deixar de lado todos os fardos e problemas!" Nesse momento, descarte todas as preocupações!
Coloque sua atenção na respiração. Ao observar a respiração, não a force para que fique longa ou curta, forte ou fraca — simplesmente deixe-a entrar e sair em seu ritmo natural.
Relaxe. Não pense em nada. Não há necessidade de pensar nisso ou naquilo. A única coisa a fazer é colocar sua atenção na inspiração e na expiração, notando o início, o meio e o fim de cada respiração. Ao inspirar, o início está na ponta do nariz, o meio no coração e o fim no abdômen. Ao expirar, é o inverso. Desenvolva a percepção da respiração: um, na ponta do nariz; dois, no coração; três, no abdômen. Reunir a "atenção" nesses três pontos resolverá todas as suas aflições.
Nesse momento, outros pensamentos podem entrar na mente — ela pode pensar em outros assuntos e distraí-lo — mas não lhes dê atenção. Simplesmente mantenha a respiração como objeto de sua concentração. A mente também pode se perder analisando e explorando emoções, mas continue a prática! Mantenha a clareza no início, no meio e no fim de cada respiração.
Com o tempo, a mente conhecerá a respiração nesses três pontos a cada momento. Quando você tiver praticado assim por algum tempo, a mente e o corpo se acostumarão a esse trabalho. O cansaço desaparecerá, o corpo ficará mais leve e à vontade, e a respiração se tornará mais fina e sutil. "Mindfulness" e "autoconsciência" serão capazes de proteger a mente e vigiá-la bem. Praticamos assim até que a mente se torne pacífica e tranquila, até que se torne "uma". O significado de "uma" é que a mente está inteiramente concentrada na respiração, não separada dela. Quando a mente se acalma, colocamos nossa atenção somente na respiração na ponta do nariz, e não mais a seguimos para cima e para baixo, até o abdômen e de volta. Isso é chamado de "acalmar a mente" — deixar a mente relaxar e estar em paz. Esse é um começo, o fundamento de nossa prática. Onde quer que estejamos, devemos tentar praticá-lo todos os dias.
Isso é chamado de "treino mental", e deve ser praticado nas quatro posturas. O essencial é que precisamos saber em que estado a mente se encontra a cada momento — está agradável ou doloroso? Está confuso? Está sereno? Ao conhecer a mente assim, nós a tornamos tranquila.
Se continuamos a nos preocupar e depois pensamos: "Estou sofrendo; preciso parar de pensar", essa visão errada só complica as coisas.
Mesmo quando nos esforçamos na prática, tentando alcançar a calma, muitos pensamentos e sentimentos ainda se moverão e mudarão, porque essa é simplesmente a natureza da mente — não há outro jeito.
Se vemos isso com clareza — aceitando a verdadeira natureza das coisas —, conseguimos nos afastar do pensar e do sentir. Quando a mente compreende de verdade, ela larga tudo. Pensamentos e sentimentos continuarão presentes, mas nenhum deles terá poder para fazer qualquer coisa.
A mente é apenas a mente. Pensamentos e sentimentos são apenas pensamentos e sentimentos. Deixe as coisas serem simplesmente o que são! Por que nos dar ao trabalho de nos apegarmos a eles? Quando conseguimos pensar e sentir assim, isso já é renúncia e não-apego.
Quando você se senta para meditar esperando não ter nenhum contato sensorial, nenhum pensamento — essa expectativa em si já é desejo! Quanto mais você luta contra os pensamentos, mais fortes eles ficam. Simplesmente, esqueça-os e continue a prática. Quando você voltar a entrar em contato com objetos externos, contemple: impermanência, sofrimento, não-eu. Coloque tudo dentro dessas três características e continue observando.
A calma há muito existe, mas você não sabe nada a respeito dela. Quem quer que você pergunte não vai conseguir lhe dizer com clareza. Basta compreender a sua própria respiração entrando e saindo — isso é o suficiente! Quando a mente se acalma, ela naturalmente compreende. Você vai conseguir sentar a noite inteira até o amanhecer, sem nem perceber que está meditando. Será tomado pela alegria do Dharma — uma alegria que não se consegue descrever!
Os cinco temas básicos de meditação: cabelos, pelos do corpo, unhas, dentes, pele. Qual é a verdadeira natureza deles? São belos? São limpos? Têm alguma substância real? São sólidos? Não... não são nada.
Uma mente calma tem cinco fatores: aplicação inicial, aplicação sustentada, arrebatamento, felicidade e unicidade.
Quando praticamos samadhi, focamos a atenção na respiração, na ponta do nariz ou no lábio superior, na inspiração e na expiração. "Levantar" a mente para focar assim chama-se aplicação inicial, ou "erguer". Quando "erguemos" a mente e a focamos num objeto dessa maneira, isso se chama aplicação sustentada — contemplar a respiração no nariz. Usamos a aplicação sustentada para pensar nas diversas sensações que surgem. Quando a aplicação sustentada se dispersa, "erguemos" outra vez a atenção com a aplicação inicial. A prática, nesse ponto, precisa ser conduzida sem apego. Ao vermos a aplicação sustentada a interagir com os sentimentos na mente, podemos achar que a mente está confusa e ficar avessos a esse processo. Só ficamos infelizes porque queremos que a mente esteja quieta. Agora, se não nos apegamos, se praticamos através do "soltar"... agindo sem apego, e dentro do não-apego, agindo... então a aplicação sustentada se tornará naturalmente menos perturbadora.
No começo, a aplicação sustentada vai para todo lado; quando compreendemos que isso é simplesmente a atividade natural da mente, ela não nos perturba — a menos que nos apegemos a ela. Soltamos, como quem deixa a água passar; a aplicação sustentada fica cada vez mais refinada. Quando o objeto da contemplação está ali mesmo, surge uma sensação de prazer. Pode aparecer como arrepios, frescor ou leveza; a mente fica em êxtase. Isso se chama "arrebatamento". Há também a felicidade: o prazer, o surgir e o passar de diversas sensações, e a esfera da unicidade, ou a própria unicidade. À medida que a mente se refina, a aplicação inicial e a aplicação sustentada ficam mais grosseiras e são abandonadas, restando apenas arrebatamento, felicidade e unicidade. Quando a mente se torna mais pura, o arrebatamento finalmente se vai, restando só felicidade e unicidade. A mente vai descartando progressivamente tudo o que é grosseiro demais para ela, até restarem apenas unicidade e equanimidade (calma). Não há nada mais — este é o limite!
Se a nossa mente deixa de ser agitada, a aplicação sustentada tenderá a contemplar o Dharma, pois se não estivermos contemplando o Dharma, a mente voltará a se dispersar.
Quanto à meditação andando, entre duas árvores, trace um caminho reto de cerca de sete ou oito braçadas. Recolha-se e firme uma resolução decidida: agora, começando pelo pé direito, a um ritmo normal. Mantenha a atenção focada o tempo todo nos dois pés. Se estiver agitado, pare até se acalmar e só depois continue. Você precisa estar claramente atento ao ponto de partida, ao ponto do meio e ao ponto final do caminho, além de saber exatamente quando dar meia-volta. A cada momento, "saiba" onde você está! Vá e venha pelo caminho. Se ficar cansado, pare, volte a atenção para dentro, observe a respiração com calma e deixe a mente descansar.
Você já praticou meditação andando? Como foi a experiência? "Pensamentos voando para todos os lados!" Então pare de caminhar até que a mente retorne. Se a sua mente estiver mesmo muito dispersa, prenda a respiração até não aguentar mais, e ela retornará.
5. Visão penetrante
Com a mente tranquila, você pode passar a observar o objeto da meditação — o corpo. Veremos que todo o corpo é formado por quatro "elementos": terra, água, fogo e vento. Seja dividido nesses elementos, seja reunido na forma de um "ser humano", tudo é impermanente, sofredor, vazio e não-eu. Nossos corpos são instáveis, mudando e se transformando o tempo todo. Nossas mentes são igualmente instáveis, mudando sem parar. Elas não são um "eu" nem uma entidade permanente; não são, de fato, "nossas". A mente é instável. Se não tivermos sabedoria e acreditarmos cegamente nela, ela nos enganará o tempo todo, e nós ficaremos girando sem fim entre sofrimento e felicidade.
Quando a "mente" enxergar isso com clareza, ela abandonará o apego ao eu — "eu" sou bonito, "eu" sou bom, "eu" sou mau, "eu" estou com dor, "eu" possuo, "eu" sou isto ou "eu" sou aquilo. Quando você refletir e compreender de fato a impermanência, o sofrimento e o não-eu, não se apegará mais a nenhum "eu". A mente que reconhece isso dará origem ao desencantamento e ao fastio; passará a ver todas as coisas como impermanentes, sofredoras, vazias e não-eu. Então a mente "se aquieta". Ela se torna o próprio "Darma"! Ganância, ódio e ilusão vão se dissipando gradualmente, pouco a pouco, até que sobre apenas a "mente" pura. A isso chamamos "a prática da meditação".
Quando a mente está tranquila e concentrada, solte o foco no objeto de concentração — a respiração — e passe a examinar o corpo e a mente formados pelos cinco agregados. Você verá com clareza que os cinco agregados são todos impermanentes.
A natureza impermanente das coisas significa que elas não conseguem nos satisfazer nem se adaptar aos nossos desejos. Elas vêm e vão por conta própria — não há um "eu" comandando tudo; o que observamos opera apenas segundo o desdobramento natural de causa e efeito. Todos os fenômenos do mundo compartilham essas mesmas características — mudança constante (impermanência), incapacidade de trazer satisfação duradoura (sofrimento) e ausência de qualquer eu permanente ou alma (não-eu). Observando toda a existência sob essa perspectiva, nosso apego e fixação aos agregados vão diminuindo gradualmente, pois passamos a ver a verdadeira natureza do mundo. A isso chamamos o surgimento da "sabedoria".
Devemos refletir sobre o prazer para perceber a sua incerteza e os seus limites. Assim que as coisas mudam, o sofrimento surge. Esse sofrimento também é incerto — não o veja como fixo ou sólido. Esse tipo de reflexão é chamado de "contemplação do perigo" — refletir sobre a incompletude e a limitação do mundo condicionado. Em vez de aceitar o prazer pelo seu valor aparente, devemos vê-lo como instável. Não devemos agarrá-lo com força, mas segurá-lo e depois soltá-lo, compreendendo tanto os benefícios quanto os males do prazer. Para meditar com habilidade, é preciso ver a natureza imperfeita dentro do prazer. É preciso tranquilizar a mente, contemplando repetidamente que esse sofrimento e desprazer é simplesmente algo instável; em última análise, é impermanência, sofrimento e não-eu. Por mais defilada que a mente possa ser em qualquer aspecto, independentemente do que surja, você deve contemplar a sua impermanência e instabilidade. Como você vê as coisas assim, elas gradualmente perderão a sua importância, e o seu apego às impurezas na mente diminuirá constantemente. Observe a mente; observe o surgir e o passar da experiência. No início, o movimento é incessante — assim que uma coisa passa, outra surge imediatamente. Parece que vemos mais surgir do que passar. Com o passar do tempo, veremos com maior clareza e compreenderemos quão rapidamente elas surgem, até que um dia cheguemos ao ponto em que elas surgem, passam e então não surgem mais.
O samadhi serve como fundamento para a vipassana e a contemplação, e não precisa ser um samadhi muito profundo. Basta examinar o que surgiu e continuar observando causa e efeito. Dessa forma, usamos a mente concentrada para contemplar formas, sons, cheiros, sabores, sensações táteis e objetos mentais.
VI. Estados e Experiências
Se a mente se recolher desse nível (concentração de acesso), obteremos um tipo de visão através da percepção de objetos mentais e estados psicológicos, porque no estágio mais profundo (onde a mente está fixa em um único objeto) não há cognição nem conhecimento.
A mente permanecerá nesse estado por um tempo e depois retorna novamente, entrando em um nível mais profundo de quietude. Se tal estado de concentração for alcançado, devemos simplesmente estar cientes das condições reais e manter a nossa observação até que a mente se recolha novamente. Quando a mente sair, várias questões surgirão dentro dela. É aqui que podemos despertar e compreender muitas coisas diferentes. É aqui que devemos observar e examinar os vieses e questões que afetam a mente, para que possamos compreendê-los e vê-los com clareza. Uma vez que essas questões sejam resolvidas, a mente gradualmente se voltará para dentro, em direção a níveis mais profundos de concentração. A mente se estabelecerá ali e amadurecerá, até que precise sair novamente.
Tudo isso é simplesmente "formação (o agregado das formações volicionais)" e ainda não se torna prajna. A sabedoria cresce dessa forma: quando ouvimos e compreendemos a mente, refletimos sobre a sua impermanência e instabilidade. A compreensão da sua impermanência trará o abandono da "causa" das coisas naquele momento. Dessa forma, a sabedoria surge ali mesmo. Nesse ponto, obteremos sabedoria e visão.
Não é que eu não ouça o canto que vem da aldeia, mas consigo me impedir de escutar. Quando a mente está fixa em um único objeto, se eu a direciono para o som, consigo ouvi-lo; quando não a direciono para o som, há silêncio. Posso ver que a minha mente e o seu objeto estão separados, tal como esta tigela e a chaleira aqui — a mente e o som não têm conexão alguma. Vejo o que liga o sujeito ao objeto, e quando esse vínculo se desfaz, a paz verdadeira se revela.
Quando me deitei e minha cabeça tocou o travesseiro, a mente voltou-se para dentro. Não sei para onde se voltou, mas voltou-se para dentro, como se uma corrente elétrica fosse ligada e meu corpo se rompesse com estrondo. A consciência era extremamente sutil, e por esse ponto a mente entrou num nível mais profundo, onde não havia absolutamente nada — completamente vazio; nada entrava, e nada podia chegar. O despertar permaneceu ali por um tempo, e só mais tarde saiu. Não o fiz sair; era apenas um espectador, alguém que sabe.
Quando saí desse estado, voltei ao meu estado mental ordinário, e então surgiu a pergunta: "O que era isso?" A resposta disse: "Essas coisas são simplesmente como são; não há necessidade de duvidar delas." Com apenas essas palavras, minha mente pôde aceitá-lo.
Após uma pausa, a mente voltou-se para dentro mais uma vez. Eu não a virei — ela se virou sozinha. Quando entrou, como antes, atingiu seu limite. Na segunda vez, meu corpo se desfez em pequenos pedaços, e então a mente entrou ainda mais fundo — quietude, completamente inacessível. Enquanto entrava, deixei-a permanecer o tempo que quisesse, e quando saiu, voltei ao ordinário. Durante esse tempo, a mente agiu por conta própria; não usei nenhum método especial para fazê-la ir e vir, mas simplesmente estava consciente e observava. Não tive dúvidas — simplesmente continuei sentado, meditando e contemplando. Na terceira vez que a mente entrou, o mundo inteiro se partiu — a terra, a grama, as árvores, as montanhas, os seres humanos — tudo era simplesmente vazio, nada restou. Quando a mente entrou, deixei-a permanecer o tempo que pudesse, e então ela se retirou, voltando ao seu estado original.
Não sei como ela permaneceu; tais coisas são difíceis de ver e de falar sobre. Não há nada com que se possa comparar. Quando emergi dessa experiência, o mundo inteiro havia mudado, e todo o meu conhecimento e compreensão tinham sido transformados.