Ge Sheng: a distinção mundana entre eu e o outro e a coexistência unificada transcendente
Uma raiz fundamental do sofrimento humano está na divisão natural das pessoas neste mundo em grupos definidos por nações, sociedades, pontos de vista e interesses diversos. Esse é um fato observável que gera hostilidade e conflitos. Quan...
Uma raiz fundamental do sofrimento humano está na divisão natural das pessoas neste mundo em grupos definidos por nações, sociedades, pontos de vista e interesses diversos. Esse é um fato observável que gera hostilidade e conflitos. Quando citamos passagens isoladas e descontextualizadas de ensinamentos sagrados para romper a relação adequada entre eu e os outros, confundindo eu e o outro de forma leviana, ao mesmo tempo que se insiste em uma não-distinção absoluta e forçada para sustentar uma sensação espúria de unidade, estamos nos desviando da prática budista autêntica. Essa atitude não só não resolve os problemas, como também deixa os praticantes budistas desorientados quando lidam com a sociedade secular.
Algumas pessoas enfatizam a qualidade transcendente da "coexistência unificada" da humanidade e da "teia de todos os seres sencientes". Isso significa que devemos rejeitar por completo as fronteiras entre eu e os outros em cada momento de nossa vida cotidiana? A resposta é não. Na sabedoria budista, a verdade se divide em dois planos: a Verdade Convencional (este mundo) e a Verdade Última (além deste mundo). Tanto o estudo dos ensinamentos budistas quanto a arte de viver de modo pragmático fundamentam-se exatamente na compreensão das funções distintas e das transformações das relações entre eu e os outros nesses dois níveis.
Este Mundo: A "Distinção Entre Eu e os Outros" como Base da Ordem e da Ação
Em nossa vida cotidiana, neste mundo, distinguir entre "eu" e "os outros" não só é necessário, como é a regra fundamental que garante o funcionamento da sociedade mundana.
A pedra angular da ação mundana: se as fronteiras individuais fossem completamente apagadas, todos os assuntos mundanos mergulhariam no caos. Num sistema de divisão social do trabalho, você é médico, eu sou paciente; você é professor, eu sou aluno. Cada pessoa cumpre seu próprio papel e assume suas responsabilidades. Sem a distinção relativa entre eu e os outros, a responsabilidade moral perderia seu fundamento, e a ordem jurídica não poderia ser estabelecida. Mesmo quando se busca o despertar, a alegria e o cuidado com os outros, as pessoas precisam compreender os limites adequados entre si e os outros, e decidir de forma racional se devem agir conforme causas e condições, para beneficiar todos os seres sencientes.
A base para a ação correta: o Budismo ensina que "deve-se engajar com os dharmas mundanos de acordo com a originação dependente". Para tomar decisões corretas e razoáveis neste mundo, precisamos reconhecer as diferenças individuais. Por exemplo, só entendendo que as necessidades fisiológicas ou as dificuldades psicológicas de outra pessoa diferem das minhas podemos oferecer assistência precisa e direcionada; só reconhecendo que uma determinada propriedade pertence a ela, e não a mim, podemos observar o preceito puro de não roubar. Assim, no nível mundano, distinguir entre eu e os outros não é uma transgressão, mas um instrumento funcional. Ele nos permite viver e trabalhar de forma ordenada e estruturada na sociedade, guiados pela clareza mental e por limites claros.
Além Deste Mundo: "Originação Dependente e Não-Eu" como a Natureza dos Fenômenos Mundanos
No entanto, quando elevamos nossa perspectiva para a verdade sagrada última "além deste mundo", essa "distinção entre eu e os outros" que foi originalmente concebida como uma ferramenta prática se torna um terreno fértil para sofrimento e conflitos se a tratarmos como uma verdade absoluta e imutável. A sabedoria que transcende este mundo nos convida a ver além da realidade subjacente a essas fronteiras:
O fluxo do tempo como fenômeno: nem "eu" nem o "outro" que delimito como separado de mim são uma entidade eterna e imutável no sentido último. Em nível micro, somos apenas o surgimento e a cessação momentâneos dos cinco agregados (forma, sensação, percepção, formações mentais e consciência) dentro do rio do tempo; em nível macro, nascimento e morte não passam de fenômenos efêmeros no vasto rio da história e da evolução do cosmos. Como todos somos apenas ondas nesse mesmo rio do tempo, apegar-se à oposição absoluta entre "esta onda" e "aquela onda" é completamente sem sentido.
Originação dependente mútua: o ensinamento central do Buda sobre a originação dependente declara: "Quando isso existe, aquilo existe; quando isso surge, aquilo surge". Nenhum ser senciente pode existir de forma isolada. Nossas formas físicas dependem do trabalho dos agricultores e da nutrição da terra; nossos pensamentos dependem da transmissão da cultura e de nossas interações com outros seres. No nível transcendente, as fronteiras de etnia, nação e religião começam a se desfazer. Nós, os outros e todas as coisas formamos juntos uma teia de vida intrinsecamente interconectada que se apoia e se eleva mutuamente. Ferir o outro é ferir a si mesmo; beneficiar os outros é beneficiar a si mesmo.
Agir na Distinção, Libertando-se Através da Não-Distinção
A sabedoria humana não está em adotar nenhum extremo, mas na integração harmoniosa e sem obstáculos do princípio último e dos assuntos mundanos.
Neste mundo, usamos a "distinção entre eu e os outros" para traçar limites, assumir responsabilidades e cumprir nossos deveres e obrigações; a isso se chama meios hábeis. Além deste mundo, repousamos na nuvem da originação dependente, vendo claramente que eu e o outro são inerentemente um, e que todos os fenômenos são impermanentes. Isso nos permite deixar de lado a hostilidade e dissolver o medo, e isso é chamado de sabedoria prajna.
Quando retornamos à vida neste mundo trazendo conosco essa sabedoria transcendente do não-eu, ainda cumprimos diligentemente nossos próprios deveres e respeitamos os direitos dos outros. Mas, nesse momento, a "distinção entre eu e os outros" não está mais manchada por apego egoísta ou suspeita defensiva. Ao contrário, ela se torna uma forma de interação lúdica com o mundo, guiada pela compaixão e pela sabedoria. Nesse momento, as causas raiz do medo e do conflito são erradicadas, e a pureza e a paz surgem naturalmente a cada momento.