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Ge Ming: Budistas, mestres indignos no mundo e os Três Refúgios

Nos ensinamentos do Buda, os Três Refúgios são a orientação profunda e duradoura do coração do praticante em direção à libertação e ao despertar. Não se trata de apego cego a grupos internos ou externos, nem de um juramento vitalício de ...

Nos ensinamentos do Buda, os Três Refúgios são a orientação profunda e duradoura do coração do praticante em direção à libertação e ao despertar. Não se trata de apego cego a grupos internos ou externos, nem de um juramento vitalício de lealdade ou devoção a uma escola, seita ou figura específica. Entre as Três Joias — Buda, Dharma e Sangha —, a Joia da Sangha refere-se, em essência, à comunidade de praticantes puros: a assembleia de discípulos nobres (ariya-saṅgha) que trilharam o caminho, observam os preceitos, praticam com diligência e estão fundados na visão correta e na atenção plena. Textos budistas antigos como o Saṃyutta Nikāya e o Majjhima Nikāya relatam repetidamente que, quando os discípulos tomavam refúgio formalmente diante do Buda, quase sempre o faziam com uma declaração verbal simples e sincera: "Tomo refúgio no Buda, tomo refúgio no Dharma, tomo refúgio na Sangha." Não é um ritual complicado, mas uma escolha clara feita em um único momento de lucidez, marcando o instante em que se toma o Buda (o Desperto) como mestre, o Dharma como caminho e a comunidade pura como companheira de jornada rumo à libertação.

É verdade que há muitos mestres indignos no mundo, assim como comunidades de sangha degeneradas e até pessoas e grupos que usam o nome do Dharma para acumular riqueza ou difundir falsidades. Casos amplamente conhecidos, como os de Shi Yongxin e Shi Xuecheng, cuja conduta inapropriada foi extensamente documentada, são exemplos doloridos disso. Tais situações são profundamente angustiantes, mas não exclusivas do budismo; na verdade, surgem com frequência em todo tipo de grupos mundanos, decorrendo do carma coletivo que pode se acumular em qualquer comunidade humana, aliado ao carma individual de agentes nocivos. A conduta inapropriada de monges corruptos ou os desvios de uma seita revelam a podridão de mentes impuras e a convergência de causas e condições, e não invalidam o verdadeiro significado da Joia da Sangha. Assim como uma floresta pode conter galhos secos e folhas mortas, a floresta em si ainda oferece sombra fresca e abrigo. O refúgio do praticante é a direção abrangente da prática pura e a comunidade de amigos espirituais virtuosos, e não a conduta pessoal de qualquer monge específico, que pode mudar a qualquer momento. Nos sutras, o Buda ensinou os discípulos a evitarem os maus amigos e os mestres indignos justamente para proteger o crescimento do Nobre Caminho Óctuplo — não para que deixassem de comer por medo de engasgar, nem para que abandonassem toda confiança na sangha como um todo.

A maioria dos budistas desenvolve a aspiração pelo Dharma muito antes de tomar formalmente os Três Refúgios, e se esforça para estudar, contemplar e praticar na vida cotidiana. Após tomarem refúgio, a maioria jamais afirma deter o único caminho correto ou rejeita as práticas alheias. Tomar refúgio é uma ligação direta entre o indivíduo e as Três Joias; não fomenta um sentimento de superioridade enraizado no apego ao eu, nem exige que quem tomou refúgio responda por cada grupo no mundo. O cerne dos Três Refúgios está na fé interior, na aceitação e na prática do verdadeiro Dharma, aliado a um compromisso firme com o caminho da libertação. Ajuda-nos a encontrar um refúgio estável em meio à agitação do mundo, mas não significa entregar nosso discernimento a qualquer autoridade externa.

Denunciar a corrupção e os abusos que proliferam nos meios religiosos, e criticar seitas, grupos e indivíduos que acumulam riqueza movidos pela cobiça ou disseminam falsos ensinamentos nocivos, é um ato necessário para defender a justiça terrena e proteger o verdadeiro Dharma. O próprio Buda também analisou e refutou os ascetas errantes e os falsos praticantes de sua época. Porém, trata-se de uma questão completamente distinta da escolha de tomar ou não refúgio nas Três Joias. Criticar os mestres indignos serve para frear o dano, promover o que é bom e proteger o verdadeiro Dharma; tomar refúgio nos Três Refúgios é a escolha individual, moldada por causas e condições, de tomar os ensinamentos do Buda como refúgio último. Não há conflito entre os dois. Na verdade, a abundância de mestres indignos neste mundo é razão mais que suficiente para que os praticantes tomem as Três Joias como sua lâmpada, cultivando a visão correta e a atenção plena, guardando a própria mente em ambientes impuros e acolhendo a aspiração de todos os seres de se libertarem do sofrimento e trilhar o caminho do despertar com compaixão e sabedoria. Não devemos deixar que uma única folha obstrua nossa visão e nos leve a negar o potencial puro da floresta inteira, nem descartar e diluir o significado dos Três Refúgios e a importância da declaração de refúgio de cada indivíduo.

O Dharma é, em essência, o caminho da libertação, do despertar e da superação do sofrimento. Os Três Refúgios não são um talismã que nos proteja dos problemas mundanos, mas um chamado à firmeza interior e uma fonte de encorajamento diante dos desafios da vida. Lembram-nos de que, por mais turbulento que o mundo se torne, a comunidade de praticantes puros sempre existirá onde quer que o verdadeiro Dharma resida; por mais escandalosa que seja a conduta individual, a Joia da Sangha apontada pelo Buda refere-se, em última instância, ao campo e à comunidade de prática pura que transcendem as faltas individuais e avançam juntos em direção ao despertar. Se os praticantes conseguirem ver as coisas como elas realmente são, não perderão sua aspiração original em meio às correntes turvas do mundo; pelo contrário, trilharão o Caminho do Meio com maior firmeza, fortalecidos e abençoados pelas Três Joias.