Contemplando a Vacuidade por Meio de Construções Fenomênicas, Escrita que Transmite o Caminho
Falamos do estágio de ver o Caminho — mas que Caminho se vê, de fato, aqui? Dois: o primeiro se chama visão verdadeira do Caminho, o segundo é a visão por meio de marcas fenomenais.
Falamos do estágio de ver o Caminho — mas que Caminho se vê, de fato, aqui? Dois: o primeiro se chama visão verdadeira do Caminho, o segundo é a visão por meio de marcas fenomenais.
A visão verdadeira do Caminho nasce da sabedoria fundamental, que verifica diretamente a verdadeira talidade dos dois vazios: o vazio do eu inerente e o vazio de todas as marcas fenomenais. Por não carregar nenhuma sobreposição conceitual, é chamada de realização não marcada.
O primeiro vislumbre do Caminho que captamos como iniciantes é da natureza perfeita: esta não é outra coisa senão a verdadeira talidade dos dois vazios. Neste estágio, não há aparências condicionadas e mutáveis — vamos desdobrar isso um pouco.
Quando nossa mente comum, ainda não desperta, entra em contato com objetos, ela sempre divide a experiência em conhecedor e conhecido: há o aspecto cognitivo (o que chamamos de "aspecto da visão") e a correspondente marca fenomenal (o "aspecto da aparência"). Mas quando a sabedoria não conceitual de um ser despertado se funde com a verdadeira talidade dos dois vazios, todos os aspectos da aparência desaparecem completamente — só resta o aspecto puro da visão, sem nenhuma divisão entre conhecedor e conhecido.
Por que isso acontece? O Dharma ensina que há inúmeros meios hábeis de prática, mas apenas uma porta de volta à fonte. Uma pessoa pode praticar a contemplação Yogacara, outra a contemplação Tiantai. Nos estágios iniciais da prática — o estágio de acumulação de mérito e o estágio de treinamento preparatório — as terminologias e estruturas dessas duas escolas diferem, por isso seus métodos para realizar a verdade variarão.
Mas no momento em que qualquer uma das práticas se alinha com a verdade última, a verdade na sua mente e a verdade na mente dos outros são exatamente as mesmas, pois nenhuma carrega marcas conceituais. Se houvesse marcas, haveria divergência. Quanto aos aspectos da aparência: as marcas fenomenais na sua mente e as impressões mentais na mente de outra pessoa nunca são idênticas.
Tomemos esta estátua de Buda como exemplo: cada um de vocês guarda em sua mente um aspecto de aparência único dela, uma impressão mental distinta. Mas quando você está alinhado com a verdade, não há marcas de forma alguma. É por isso que, quando seres despertos das dez direções realizam a verdade, cada um deles permanece na talidade: sua mente é talidade, a mente deles é talidade — uma talidade, não uma segunda talidade.
Marcas podem surgir no curso da prática, mas no momento da realização plena, não há a mínima coisa a ser agarrada. Esta é a característica da sabedoria fundamental se fundindo com a verdadeira talidade: ela é completamente desprovida de marcas.
Mas a sabedoria que surge no instante imediatamente após a sabedoria fundamental é a sabedoria realizada subsequente, que verifica a natureza dependente de todos os fenômenos. Neste estágio, percebe-se o vazio mesmo enquanto se engaja com aparências condicionadas, e isso ainda se chama realização marcada.
É por isso que, no estágio da realização, penetramos dois níveis de verdade: o primeiro é a visão verdadeira do Caminho, o segundo é a visão por meio de marcas fenomenais. A visão por meio de marcas fenomenais é o meio hábil usado para guiar e libertar seres sencientes, por isso ainda trabalha com marcas condicionadas.
Tomemos o exemplo do Mestre Chan Guishan Lingyou. Um ano, ele liderou um retiro de chuvas de verão, um período de noventa dias de prática intensiva. No último dia, quando os monges se preparavam para partir e vieram se despedir dele, ele lhes deu este ensinamento: "É melhor ir ao lugar sem grama por dez mil milhas do que vagar para leste ou oeste." Ele estava lhes dizendo que não importa para onde fossem — de volta aos seus templos de origem, para leste ou oeste por toda a terra —, o refúgio mais importante deles era aquele lugar livre de todas as marcas: seu verdadeiro santuário, sua grande morada de paz.
Se vasculharmos todos os discursos puros do Buda, não o encontraremos pronunciando exatamente estas palavras. Mas o princípio por trás delas se alinha perfeitamente com o ensinamento do Buda. Como Guishan Lingyou pôde expressar tal imagem? Veio de sua sabedoria realizada subsequente.
Isso significa que nossas mentes comuns e iludidas estão repletas apenas de desejo, sem qualquer acesso ao Caminho. Então, como começamos? Usamos o método de "observar o vazio por meio de marcas fenomenais", e deixamos que as palavras carreguem o Caminho: contemplamos os ensinamentos, a palavra escrita, avançando aos poucos em direção ao Caminho.
Mas, uma vez plenamente alinhados com o próprio Caminho, também podemos gerar palavras a partir do próprio Caminho, criando ensinamentos que abranjam todos os meios hábeis possíveis para os seres sencientes.
Tomemos os exemplos famosos do bastão de Deshan e do grito de Linji: se você perguntar ao Mestre Chan Deshan qual é o verdadeiro significado do Dharma, ele o golpeará com seu bastão, usando o próprio golpe como ensinamento para despertá-lo. Se você perguntar ao Mestre Chan Linji a mesma questão, ele soltará um grito de reprimenda afiada. Quer ele golpeie ou grite, pode eliminar seus pensamentos iludidos e ajudá-lo a despertar para a verdade. Todos esses são exemplos da visão por meio de marcas fenomenais. Como todas são marcas condicionadas, os meios hábeis de cada ancestral são únicos.
O traço distintivo do estágio da realização é este: a visão verdadeira do Caminho que o praticante experimenta por si mesmo está desprovida de todas as marcas, e não pode ser passada diretamente aos outros. Mas quando o praticante emerge desse estado de visão verdadeira, aplica a sabedoria realizada subsequente à natureza dependente da realidade. Observa as capacidades de diferentes seres sencientes e estabelece meios hábeis distintos para cada um. É aqui que entra a realização marcada: manifestam todo tipo de marcas, quer gentis e acolhedoras, quer afiadas e corretivas, cada uma adaptada às necessidades do ouvinte. Isso é o que se chama estágio da realização.