Apreciando um Verso Zen: Incontáveis como Areias, Nenhum Atinge o Despertar — A Falha Está em Buscar o Caminho das Palavras
Mestre Chan Dongshan Liangjie (Dinastia Tang)
Gāthā do Leito de Morte
Mestre Chan Dongshan Liangjie (Dinastia Tang)
Discípulos tão incontáveis quanto a areia do rio Ganges, nem um sequer atinge o despertar. A falha está em buscar o caminho na língua alheia. Esquecer a forma e dissolver todos os vestígios é o verdadeiro objetivo da prática. Esforça-te com diligência, caminha pelo céu vazio.
“Discípulos tão incontáveis quanto a areia do rio Ganges, nem um sequer atinge o despertar”: ao longo dos tempos, os praticantes budistas são tão incontáveis quanto pelos de boi e grãos de areia do rio Ganges, mas aqueles que despertam para o Caminho são tão raros quanto penas de fênix e cornos de unicórnio. Por que isso? “A falha está em buscar o caminho na língua alheia” — este é precisamente o ato de procurar o Dharma fora da própria mente. O erro é buscar o caminho nas palavras de outros, apegando-se aos promptos de kōan alheios, aos registros de casos públicos e às experiências pessoais, em vez de fazer um esforço genuíno no próprio solo da mente. Como reza o ditado antigo:
Não busques longe e por todo lado o Buda no Pico do Abutre; O Pico do Abutre não é senão o teu próprio coração. Cada pessoa tem sua própria pagoda no Pico do Abutre; Vai praticar bem ao pé de seus pés.
“Esquecer a forma e apagar todos os vestígios” é o verdadeiro objetivo da prática: “esquecer a forma” significa soltar o apego às formas do corpo e da mente, desfazendo a ilusão de um eu separado e permanente; “apagar todos os vestígios” significa dissolver todas as marcas do esforço deliberado e artificial, sem deixar vestígios de atividade mental intencional, assim como um barco desliza sobre a água sem deixar ondulações.
Mas como se atinge isso? O verso final aponta para o ponto de entrada mais sutil da prática: “Esforça-te com diligência” significa que isso não se conquista pela preguiça ou pela negligência; é preciso ser vigoroso e inabalável, mantendo uma consciência clara e desperta a cada momento, sem o menor relaxamento. E “caminha pelo céu vazio” significa que essa diligência não é apego a formas fixas e concretas: é como caminhar pelo vazio aberto, cada passo sem nada em que se apoiar, cada passo sem deixar vestígio. Não cai no vazio embotado e inerte, nem se prende ao reino da ação deliberada e condicionada. Quando praticamos todas as ações virtuosas do Dharma sem apego a nenhuma morada fixa, a ação deixa de ser ação ligada; a própria diligência é não-ação (wúwéi).