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Apreciação de um Poema Zen: Ser Buda, Não Precisamos Buscar Buda — Somente Assim os Vínculos São Esquecidos

[Mestre Chan Guishan Zhengyuan, Dinastia Tang]

Verso Dois para os Discípulos [Mestre Chan Guishan Zhengyuan, Dinastia Tang]

Ao buscar um mestre, reconhece-se a fonte da mente original, Ambas as margens são profundas — só uma é incompleta. Se és Buda, não precisas procurar outro Buda, Só ao ver isso, todos os vínculos se desvanecem.

"Ao buscar um mestre, reconhece-se a fonte da mente original" vai ao coração dos 1.700 koans da tradição Chan: todo ensinamento e toda prática apontam para uma mesma verdade — ajudar as pessoas a despertar para a fonte de sua mente original. É exatamente o que Mazu quis dizer quando afirmou: "Esta mente, em si mesma, é Buda." Mas com frequência, as pessoas se atolam tentando decifrar uma ou duas frases de um koan e perdem completamente de vista essa fonte da mente, distanciando-se cada vez mais do caminho. É como confundir o dedo que aponta para a lua com a própria lua: não veem que a fonte da mente é a lua, não o dedo. Presos na ilusão e no apego, os seres sencientes fazem de uma única frase acertada um "poste para amarrar burros por dez mil eras."

"Ambas as margens são profundas — só uma é incompleta." Antes do despertar, nem a margem distante da iluminação nem a margem próxima da vida comum são verdadeiras; uma vez despertos, ambas são plenamente reais. "Nenhum lado é fixo, nem o Caminho do Meio se sustenta." A margem distante e a margem próxima são uma única, não duas — então que mal há em falar de duas? Duas não podem ser definidas, e uma tampouco é uma. Quando vês isso com clareza, percebes que o Buda sempre esteve diante de ti, refletido no espelho: todo lugar é Buda, então que necessidade há de buscar e procurar? Mente e Buda não são dois; um Buda fora da mente não existe de forma alguma. Como reza o ditado: "Desgastando sapatos de ferro numa busca infrutífera, apenas para descobrir que ele sempre esteve contigo, o tempo todo, sem nenhum esforço." Ao despertar para isso, larga todos os apegos, cortas os mil fios do pensamento, flutuas com as ondas, moves-te com a corrente natural, solto e à vontade — subindo e alçando voo, livre e desatado, por completo.


Notas de Tradução

  • “Ambas as margens são profundas” (两岸俱玄): Optei por “profundas” em vez de “misteriosas” para traduzir o caractere 玄, que designa a profundidade inefável no coração do discurso Chan, mantendo ao mesmo tempo “ambas as margens” para preservar a metáfora fluvial de 彼岸 (margem distante) e 此岸 (margem próxima).
  • “Um poste para amarrar burros por dez mil eras” (万世系驴橛): Trata-se de um idioma Chan muito conhecido; a imagem literal vívida foi mantida na tradução para preservar seu impacto original e contundente.
  • “Desgastando sapatos de ferro numa busca infrutífera, apenas para descobrir que sempre esteve contigo o tempo todo, sem nenhum esforço” (踏破铁鞋无觅处,得来全不费功夫): Provérbio chinês comum, traduzido de forma natural para o português a fim de manter sua ressonância familiar para os leitores.
  • “Subindo e alçando voo, livre e desatado” (腾腾任运): A reduplicação 腾腾 evoca um sentido de movimento vigoroso e sem obstáculos, enquanto 任运 se traduz por “seguir o curso natural” das coisas.