A Treasury of Q&A with Teacher Goenka
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# Um Tesouro de Perguntas e Respostas com o Mestre Goenka
**Abandone as falsas ilusões e caminhe em direção à verdade. Que possamos continuar, passo a passo, rumo à verdadeira meta.**
Desde 1969, ao longo de seu trabalho com o Dhamma, Goenkaji recebeu milhares de perguntas de meditadores de Vipassana e de outras pessoas do mundo inteiro.
Essas perguntas abrangem uma gama notável — desde a natureza do Dhamma, a meditação Vipassana e o objetivo da vida, até o sofrimento humano, Deus, o renascimento e até mesmo a insônia.
As perguntas e respostas foram amplamente organizadas em seções por tema. A seção final, "A Prática de Vipassana", oferece esclarecimentos sobre a técnica, voltados especificamente para os estudantes de Vipassana.
**Vale lembrar, contudo, que a resposta que Goenkaji mais gostava de dar era sempre: "Você deve experimentar a verdade por si mesmo. Só então ela se torna a sua verdade. Caso contrário, permanece a verdade de outra pessoa."**
Para os estudantes de Vipassana, Goenkaji costumava enfatizar que respostas verdadeiras só podem surgir de uma prática contínua e correta.
Este tesouro de perguntas e respostas visa orientar e inspirar os estudantes de Vipassana — e encorajar aqueles que ainda não fizeram um curso a participar de um e a experimentar pessoalmente os seus benefícios.
**Que todos os seres sejam felizes!**
Perguntas categorizadas como: atualizado em 4 de setembro de 2000
Vício, Alma, Raiva, Ansiedade, Apego, Buda, Causa e Efeito, Chakras, Crianças, Complexos Psicológicos, Concentração, Hábitos, Desejo, Dhamma, Poder do Dhamma, Morte, Ego, Emoções, Equanimidade, Escapismo, Jejum, Alimentação, Deus, Felicidade, Honestidade, Hipnose, Insônia, Kamma (Causa e Efeito), Vida, Libertação, Mundo, Mantra, Metta (Amor-Bondade), Alegria Apreciativa, Mente, Conduta Moral, Dor, Paz, Cursos em Prisões, Renascimento, Serviço Altruísta, Sexo, Sociedade, Sofrimento, Vibrações, Cursos de Vipassana, Pagoda Global, Meditação Vipassana
**Esclarecimentos sobre a Prática de Vipassana** (conforme perguntado por estudantes de Vipassana)
**Vício**
P: Como podemos evitar vícios como o tabagismo?
R: Existem muitos tipos de vício. Quando você pratica Vipassana, compreenderá que o vício não está na substância em si. À primeira vista, pode parecer que você é viciado em cigarros, álcool, drogas ou folha de betel. Mas, na realidade, o que te vicia é uma sensação corporal específica — um fluxo bioquímico desencadeado por aquela substância. O mesmo vale quando você é tomado pela raiva, pela paixão e assim por diante: tudo isso também está ligado a sensações corporais. O vício está nas sensações em si. Através da Vipassana, você se liberta desse vício — de todos os vícios. É natural, é científico. Basta experimentar, e você verá por si mesmo como funciona.
**Alma**
P: O que é o "eu" (atma), a "alma"?
R: Pratique Vipassana, e você descobrirá a realidade que se revela dentro de você. Perceberá que aquilo que você chama de "alma", de "eu" (atma), nada mais é do que uma reação da mente — apenas uma parte da mente. A vida inteira, você viveu sob a ilusão de que "isto sou eu". Através da Vipassana, você verá que esse "eu" não é permanente. Ele está em constante mudança, sempre impermanente — nada além de inúmeras partículas subatômicas em fluxo e movimento contínuos. Só com a experiência direta a ilusão do "eu" se dissipa — e, com ela, a ilusão da "alma". Quando as ilusões e os delírios se dissolvem, todo o sofrimento desaparece. Mas isso precisa acontecer pela experiência. Simplesmente aceitar uma crença filosófica não faz isso acontecer.
**Raiva**
P: Como uma pessoa pode sair da raiva?
R: Através da Vipassana! Quando a raiva surge, o estudante de Vipassana observa a respiração, ou as sensações corporais que surgiram — observando com equanimidade, sem reagir por hábito. A raiva rapidamente perde força e desaparece. Com a prática contínua, o padrão habitual da mente de reagir com raiva vai se transformando.
P: Não consigo reprimir minha raiva, mesmo quando tento.
R: Não a reprima. Observe-a. Quanto mais você a empurra para baixo, mais ela afunda na mente. Os complexos se fortalecem, e libertar-se deles torna-se cada vez mais difícil. Não a reprima, não dê vazão a ela. Apenas observe.
Ansiedade
P: Estou sempre tomado por ansiedade. A Vipassana pode me ajudar?
R: Claro. É exatamente para isso que a Vipassana serve — para libertá-lo de todo sofrimento. A ansiedade e a preocupação estão entre os maiores sofrimentos, e surgem porque, no íntimo da mente, existem certas impurezas. Por meio da prática de Vipassana, essas impurezas sobem à superfície e gradualmente se dissipam. Naturalmente, isso leva tempo. Não há mágica, nem milagre, nem guru envolvido. Alguém simplesmente lhe aponta o caminho certo. Você precisa trilhar esse caminho por si mesmo, trabalhando com diligência para se libertar do seu próprio sofrimento.
Apego
P: Você disse para não se apegar às coisas. E quanto às pessoas?
R: Sim — o mesmo vale para as pessoas. Quando você tem verdadeiro amor por alguém, um amor compassivo, é algo completamente diferente. Mas quando há apego, não há amor real. Você está apenas amando a si mesmo, porque espera algo em troca — material, emocional, seja o que for. A quem quer que você esteja apegado, você está buscando algum tipo de retorno. Quando você começa a verdadeiramente amar essa pessoa, você simplesmente dá — de forma unidirecional, sem esperar nada em troca. E então o apego se dissolve. A tensão desaparece. Você se sente tão feliz.
P: Sem apego, como o mundo pode funcionar? Se os pais não estivessem apegados, eles nem sequer cuidariam dos seus filhos. Como se pode amar ou se envolver com a vida sem apego?
R: Não-apego não significa indiferença. O termo mais preciso é "indiferença sagrada". Como pai ou mãe, você ainda assume total responsabilidade por cuidar do seu filho, com todo o seu amor — mas sem se agarrar. Por puro amor altruísta, você simplesmente cumpre o seu dever. Suponha que você esteja cuidando de uma pessoa doente e, apesar dos seus melhores esforços, ela não se recupera. Você não se desfaz em lágrimas, porque isso não ajudaria. Com uma mente equilibrada, você tenta outras abordagens. Essa é a indiferença sagrada: nem inação nem reação, mas uma ação prática e positiva feita com uma mente equilibrada.
P: Agir corretamente também é uma forma de apego?
R: Não. Você simplesmente faz o seu melhor, compreendendo que os resultados estão além do seu controle. Você faz a sua parte e deixa o resultado para a lei — para o Dhamma.
P: ...Então isso significa cometer erros deliberadamente?
R: Se cometer um erro, aceite-o e tente não repeti-lo. Você pode falhar de novo — e mesmo assim sorri e tenta outra abordagem. Se você consegue encarar o fracasso com um sorriso, não está apegado. Se o fracasso o deixar miserável e o sucesso o deixar complacente, então você definitivamente está apegado.
Buda
P: Você continua se referindo ao Buda. Está pregando o Budismo?
R: Não me interesso por "ismos". Eu ensino Dhamma — e é isso que o Buda ensinou. Ele nunca ensinou nenhum "ismo" ou doutrina sectária. O que ele ensinou é algo de que pessoas de todas as origens e todas as fés podem se beneficiar. O método dele permite que uma pessoa viva uma vida benéfica tanto para si quanto para os outros. O Buda não se limitava a pregar: "Ó pessoas, vocês devem viver desta ou daquela maneira". Ele ensinou o Dhamma prático — um método prático para viver uma vida íntegra e benéfica. E a Vipassana é essa técnica prática, que guia as pessoas rumo a uma vida genuinamente feliz.
P: Todos os métodos de meditação budistas já eram conhecidos no Yoga. O que há de novo no que o Buda ensinou?
A: O que hoje chamamos de Yoga, na verdade, desenvolveu-se muito mais tarde. Patañjali viveu cerca de quinhentos anos após o Buda, e seus Yoga Sutras naturalmente refletem a influência dos ensinamentos budistas. É claro que as práticas iogues já eram amplamente difundidas na Índia antes do Buda, e o próprio Buda explorou esses métodos antes de sua iluminação. Mas todos eles se limitavam à sila (moralidade) e ao samadhi (concentração da mente) — alcançando no máximo os oito jhanas, os oito níveis de absorção, que ainda pertencem ao reino da experiência sensorial. O Buda descobriu um nono jhana: Vipassana, o cultivo do insight que conduz o meditador à meta final, para além do sofrimento da experiência sensorial.
Causa e Efeito
Q: Existem eventos casuais que acontecem sem uma causa?
A: Nada acontece sem uma causa. Isso é impossível. Às vezes, com nossos sentidos e intelecto limitados, não conseguimos rastrear a causa com clareza — mas isso não significa que ela não exista.
Q: Tudo na vida é predeterminado?
A: É verdade que nossas ações passadas geram resultados, bons ou maus. Elas moldam o padrão geral de nossa vida presente — as grandes circunstâncias em que nos encontramos. Mas isso não significa que nossa vida esteja fixada, trancada por ações passadas sem que nada de novo aconteça. Não é assim que funciona. As ações do passado influenciaram o fluxo de nossas vidas, resultando em experiências agradáveis ou desagradáveis. Mas as ações presentes têm o mesmo peso. A natureza nos deu a capacidade de sermos senhores de nossas ações no presente. Com essa autonomia, podemos mudar o futuro.
Chakras
Q: Qual o efeito da Vipassana nos chakras?
A: Os chakras são simplesmente centros nervosos ao longo da medula espinhal. A Vipassana o conduz a um estágio em que você consegue sentir a atividade de cada átomo sutil no corpo. Os chakras são apenas uma parte disso. Essa atividade pode ser sentida por todo o corpo.
Crianças
Q: Qual a sua opinião sobre ensinar o Dhamma às crianças?
A: A melhor hora para começar é antes mesmo de a criança nascer. Durante a gravidez, a mãe deve praticar Vipassana para que a criança também entre em contato com a técnica e nasça como uma criança do Dhamma. Mas, se você já tem filhos, ainda pode compartilhar o Dhamma com eles. Se forem bem pequenos (com menos de oito anos), você pode lhes enviar metta após cada meditação e na hora de dormir (essa técnica de metta bhavana — compartilhar boa vontade e vibrações compassivas com todos os seres — é ensinada na manhã do décimo dia de um curso de Vipassana). Assim, eles se beneficiam do Dhamma que você está praticando. Conforme crescerem um pouco, você pode explicar alguns aspectos do Dhamma de um jeito que consigam entender e com o qual se identifiquem. Quando puderem compreender ao menos um pouco disso, ensine-lhes alguns minutos de anapana — a observação da respiração. Não os pressione de forma alguma. Apenas deixe que se sentem com você, que observem a respiração por alguns minutos e, depois, os deixe ir brincar. Faça com que sentar pareça uma brincadeira; eles vão gostar. E, o mais importante: você mesmo deve levar uma vida saudável no Dhamma. Você precisa ser um exemplo vivo. Em casa, crie um ambiente harmonioso e pacífico — isso os ajudará a crescer como pessoas saudáveis e felizes. Essa é a melhor coisa que você pode fazer pelos seus filhos.
Q: Algum conselho para mães de crianças pequenas que têm dificuldade em manter a prática?
A: Por que deveria haver dificuldade? Mesmo com uma criança no colo, você ainda pode praticar. Pode enviar metta para a criança. Pode enviar metta para os outros. Você precisa aprender a manter o Dhamma vivo, independentemente das circunstâncias. Portanto, aplique o Dhamma a todas as suas responsabilidades. O dever de uma mãe é cuidar de seu filho de uma maneira alinhada ao Dhamma.
Q: É necessário introduzir a Vipassana na educação?
R: Com certeza. Vipassana é uma ciência prática do viver. A próxima geração precisa aprendê-la desde cedo para que possa viver uma vida saudável e harmoniosa. Se compreenderem o Dhamma puro — as leis da natureza —, viverão de acordo com essas leis. Quando crianças aprendem Vipassana em escolas e faculdades, como já acontece em algumas cidades, os resultados são muito bons.
Complexos Psicológicos
P: Como se libertar de sentimentos de inferioridade ou superioridade?
R: É exatamente isso que Vipassana faz. Todo complexo psicológico é uma impureza da mente. Quando essa impureza aflora à superfície, você a observa nas sensações do corpo. Ela passa. Surge de novo. Você observa de novo. Ela passa de novo. Aos poucos, esses complexos se enfraquecem até deixar de surgir completamente. Basta observar. Tanto suprimir quanto desabafar são prejudiciais. Vipassana ajuda a pessoa a se libertar de todos os complexos psicológicos.
Concentração
P: Qual é a diferença entre Vipassana e concentração?
R: Vipassana não é apenas concentração. É a observação contínua da realidade interior, momento a momento. Você desenvolve suas capacidades de atenção e concentração. As coisas continuam mudando, mas você permanece atento a elas — isso é Vipassana. Mas se você se concentra apenas em um objeto, esse objeto pode ser ilusório, e aí nada muda. Preso a essa ilusão, sua mente permanece fixa nele, e você não está observando a realidade. Quando você observa a realidade, ela está sempre mudando. Está em fluxo constante, e você permanece atento a isso. Isso é Vipassana.
Hábitos
P: O senhor fala sobre os hábitos da mente. Esse treinamento também é um hábito da mente, mesmo sendo positivo?
R: Exatamente o oposto — Vipassana é um processo de remoção de hábitos. Não impõe nada à mente; naturalmente elimina as impurezas nocivas para que só restem qualidades positivas e saudáveis. À medida que essas emoções negativas se dissolvem, Vipassana revela a natureza fundamental da mente pura — essas mesmas qualidades.
Anseio
P: É correto ansiar pela iluminação?
R: Não. Se você ansiar pela iluminação, nunca a alcançará. A iluminação acontece naturalmente. Se você a anseia, está indo na direção oposta. Você não pode ansiar por um resultado específico — o resultado vem por si só. Se você começa a ansiar, "preciso alcançar o nirvana, preciso alcançar o nirvana", está se afastando do nirvana. O nirvana é um estado livre de anseio, mas você quer alcançá-lo pelo anseio — isso é absolutamente impossível.
P: Desejos intensos são a mesma coisa que anseio?
R: Há uma diferença. Se é anseio ou não depende do que você busca. Se você não consegue e se sente frustrado, é anseio. Se você não consegue e apenas sorri, é só um desejo — ainda não virou anseio. Sempre que há anseio e apego, e você não consegue o que quer, inevitavelmente ficará aflito. Se você está aflito, há algum anseio ali. Caso contrário, não há.
P: Não existem formas saudáveis de anseio e aversão — por exemplo, ódio à injustiça, desejo de liberdade, medo de dano físico?
R: Anseio e aversão nunca podem ser saudáveis. Sempre o manterão tenso e infeliz. Mesmo quando o objetivo é nobre, agir por anseio ou aversão significa usar um meio prejudicial para alcançá-lo. Obviamente, é preciso se proteger do perigo. Mas se você age dominado pelo medo, desenvolverá um complexo de medo que, no fim, o prejudica. E se agir por ódio, mesmo vencendo a injustiça, esse ódio depois se transformará em um nó psicológico prejudicial. É preciso combater a injustiça, é preciso se proteger do perigo — mas dá para fazer isso com uma mente equilibrada, livre de tensão. Por amor aos outros, é possível usar meios equilibrados e ainda assim alcançar bons resultados. Uma mente equilibrada é sempre benéfica e produz os melhores resultados.
P: O que há de errado em querer algumas coisas materiais para tornar a vida mais confortável?
R: Se é uma necessidade genuína, não há nada de errado nisso, desde que você não esteja apegado. Esforce-se para conseguir o que realmente precisa. Se não conseguir algo, sorria e tente de outra forma. Se tiver sucesso, aproveite o que tem—mas sem apego.
P: Planejar o futuro pode ser considerado desejo?
R: Mais uma vez, tudo depende de você estar ou não apegado aos seus planos. Todos precisamos planejar o futuro. Se seu plano não der certo e você começar a chorar e reclamar, é sinal de que está apegado. Mas se ele não der certo e você ainda conseguir sorrir e pensar: "Bem, dei o meu melhor. E daí se fracassou? Vou tentar de novo!", então você está agindo sem apego e continua feliz.
**Dhamma / Dhamma Correto**
P: O que é Dhamma?
R: Tudo o que a mente abarca no momento presente—isso é Dhamma. O Dhamma é tudo o que existe na mente.
P: Qual a relevância do Dhamma para pessoas que passam fome nas ruas?
R: Muitas pessoas de áreas de favelas já participaram de cursos de Vipassana e os acharam muito benéficos. Seus estômagos estão vazios e suas mentes, muito agitadas. Por meio da Vipassana, elas aprendem a permanecer calmas e equânimes. Assim, conseguem enfrentar seus problemas. Suas vidas melhoraram: libertaram-se de vícios como álcool, jogos de azar e outros semelhantes. O Dhamma ajuda a todos, sejam pobres ou ricos.
P: Como uma pessoa que vive de fato pelo Dhamma pode lidar com um mundo que não faz o mesmo?
R: Não tente mudar um mundo que não vive pelo Dhamma. Tente mudar as partes de você mesmo que não seguem o Dhamma—as reações habituais que lhe causam sofrimento. Por exemplo, quando alguém o ofende, compreenda que essa pessoa está sofrendo. Esse é o problema dela. Por que torná-lo seu? Por que deixar que isso gere raiva e sofrimento em você? Fazer isso significa que você não é o seu próprio mestre—você é escravo dessa pessoa. Enquanto ela quiser, pode fazer você sofrer. Seja o seu próprio mestre. Mesmo em meio a todas as circunstâncias prejudiciais ao seu redor, você ainda pode viver pelo Dhamma.
P: Como você equipara religião com o Dhamma Correto?
R: Se religião se refere a uma tradição sectária—hindu, muçulmana, budista e assim por diante—, então é completamente contrária ao Dhamma. Mas se a religião for entendida como lei natural — a lei natural universal —, então ela é o mesmo que o Dhamma Correto.
P: Você acredita que o Dhamma Correto pode guiá-lo?
R: Sim. Sem dúvida, o Dhamma Correto começa a guiá-lo. À medida que a mente se torna cada vez mais purificada, sua panna—sua sabedoria nascida da experiência direta—cresce mais forte. Quando qualquer problema surge no mundo ou na sua vida, você só precisa olhar para dentro por um instante e encontra a resposta sozinho. Assim, ele se torna o seu guia. Você não deve depender de mais ninguém. Você só depende de si mesmo e do Dhamma Correto.
**O Poder do Dhamma**
P: Quando progredimos no caminho correto, existe o poder do Dhamma que nos sustenta?
R: Certamente—tanto de forma visível quanto invisível. Por exemplo, as pessoas tendem a se associar a outras que compartilham interesses, trajetórias de vida e temperamentos semelhantes. Quando desenvolvemos boas qualidades em nós mesmos, naturalmente atraímos pessoas que também as possuem. Quando entramos em contato com essas pessoas, naturalmente recebemos seu apoio.
Se desenvolvemos amor, compaixão e bondade, ressoamos com todos os seres que emanam essas vibrações positivas, sejam visíveis ou invisíveis, e começamos a receber seu apoio. É como sintonizar um rádio para captar a frequência específica transmitida por uma estação distante. Da mesma forma, nos sintonizamos para emitir esse tipo de vibração; assim, recebemos os benefícios dela. Mas tudo isso só acontece quando praticamos com diligência e da forma correta.
**A Morte**
P: Como a Vipassana pode ser útil no momento da morte?
R: No momento da morte de outra pessoa, você simplesmente se senta e lhe envia compaixão. E quando a sua própria morte chegar, observe-a no nível das sensações. Todos devem observar a própria morte: chegando, chegando, chegando, indo, indo, indo, partiu! Seja feliz!
**O Ego**
Q: Você sempre fala do "eu" em termos negativos. Ele não tem um lado positivo? Não existe uma experiência de "eu" repleta de alegria, paz e bem-aventurança? A: Através da prática de Vipassana, você descobrirá que todos esses prazeres sensoriais são impermanentes — surgem e passam. Se esse "eu" realmente os desfrutasse, se fossem "meus" prazeres, então o "eu" teria algum controle sobre eles. Mas eles simplesmente surgem e passam, fora do meu controle. Onde está o "eu" então?
Q: Não estou me referindo a prazeres sensoriais, mas a níveis muito profundos. A: Nesse nível, o "eu" é completamente irrelevante. Quando você o alcança, o eu se dissolve. Só há alegria. Nesse ponto, a questão do "eu" nem surge.
Q: Tudo bem, não vamos dizer "eu"; vamos falar da experiência de uma pessoa. A: É a sensação que sente; não há uma pessoa que sente. As coisas simplesmente acontecem como são. Agora você pensa que deve haver um "eu" que sente, mas depois de iniciar a prática de Vipassana, chegará ao estágio em que o eu se dissolve. Nesse ponto, suas perguntas desaparecerão!
Por convenção, sim, precisamos usar palavras como "eu", "meu" e assim por diante. No entanto, apegar-se a elas, tratando-as como realidades últimas, só trará sofrimento.
Q: Percebo que sou muito egocêntrico e propenso a menosprezar os outros. Qual a melhor forma de resolver esse problema? A: Trabalhe para dissolvê-lo por meio da meditação. Quando alguém tem um ego forte, menospreza os outros, diminui a importância alheia e se supervaloriza. Mas a meditação dissolve o ego naturalmente. Quando ele se dissolve, você não faz mais nada que prejudique os outros. Medite, e o problema se resolve por si só.
Q: Por que eu sempre acabo reforçando esse ego? Por que continuo me esforçando para ser "eu"? A: Por ignorância, a mente tem esse condicionamento habitual. Mas o Vipassana o liberta desse hábito prejudicial. Você não pensa mais apenas em si mesmo; aprende a pensar nos outros.
Emoções
Q: A raiva, a aversão, a tristeza etc. não são todas emoções humanas naturais? A: Você as chama de emoções humanas "naturais", mas a verdadeira natureza da mente é, na verdade, muito pura. Esse é um erro muito comum. A natureza pura da mente está tão perdida que a natureza impura da mente passou a ser considerada "natural"! A mente verdadeiramente natural é muito pura, cheia de compaixão e boa vontade.
Q: Vou dar um exemplo. Suponhamos que uma pessoa próxima de mim faleça — eu naturalmente…… A: Você está dizendo a mesma coisa de novo! Você se deixou levar por essa natureza equivocada. Se alguém falece, não chore. Chorar não resolve nada. O tempo todo que você passa chorando, está plantando a semente do choro. A natureza não leva em conta o motivo do seu choro; a natureza só vê que semente você plantou, e a semente do choro só trará mais choro.
Q: Mas é exatamente assim que me sinto em relação à pessoa que faleceu. A: Você também está prejudicando essa pessoa, porque, para onde quer que ela vá em sua próxima vida, onde quer que esteja, você está enviando a vibração do choro. Pobre pessoa, tanta agitação. Ela recebe a vibração do sofrimento. Por outro lado, ao final do curso de Vipassana de 10 dias, você aprende a enviar vibrações de bondade amorosa, amor e compaixão. Essa pessoa ficará feliz. Não importa onde você esteja, sua vibração de compaixão alcançará ela. Substitua o choro pelo envio de compaixão, e você poderá ajudar essa pessoa.
Equanimidade
Q: O que você quer dizer com "manter a equanimidade"? A: Quando você não reage por hábito, você tem equanimidade.
Q: Podemos sentir e desfrutar as coisas plenamente enquanto mantemos a equanimidade? A: Claro que sim. A vida é para ser desfrutada naquilo que é benéfico e bom. Mas você não deve se apegar a nada. Mantenha a equanimidade e desfrute, de modo que, quando perder, possa sorrir calmamente: "Eu sabia que ia embora. Foi-se. Qual o problema?" Aí sim você está realmente desfrutando a vida. Caso contrário, você se apega, e se perder, acaba mergulhando no sofrimento. Então não sofra. Seja feliz em qualquer situação.
P: Não é antinatural nunca reagir por hábito? R: Se os únicos padrões habituais que você conheceu foram os da mente impura, pode parecer antinatural, de fato. Mas, para uma mente pura, manter a equanimidade perfeita é muito natural. Uma mente equânime e pura está cheia de amor, compaixão, desapego benéfico, boa vontade e alegria. A equanimidade é a própria mente pura. Aprenda a experimentá-la.
P: Se não reagimos por hábito, como podemos viver nossas vidas?
Resposta: Não reaja por hábito. Em vez disso, aprenda a agir com uma mente equilibrada. Os praticantes de Vipassana não se transformam em plantas inertes, presas à inação. Eles aprendem a se engajar em ações intencionais e proativas. Se você consegue mudar os padrões da sua vida, deixando de lado as reações automáticas e habituais para agir de forma positiva e deliberada, ganhou algo incrivelmente precioso. Por meio da prática de Vipassana, é possível mudar esse padrão.
Pergunta: Qual é a relação entre equanimidade e samadhi (concentração da mente)? Resposta: Ter uma concentração forte não significa automaticamente que você possui equanimidade. Uma pessoa pode até alcançar a concentração perfeita enraizada no desejo. Contudo, essa não é a concentração correta — ela está enraizada na impureza. Já a concentração fundamentada na equanimidade traz resultados maravilhosos, pois uma mente pura e focada possui um poder imenso. Ela não pode agir de uma maneira que prejudique você ou qualquer outra pessoa. Mas uma mente poderosa obscurecida pela impureza prejudicará os outros e também a você. É por isso que a equanimidade aliada à concentração é tão benéfica.
Pergunta: Se alguém tenta deliberadamente tornar nossas vidas dolorosas, como podemos tolerar isso? Resposta: Primeiro, não gaste sua energia tentando mudar os outros. Concentre-se em mudar a si mesmo. Os outros podem tentar causar-lhe dor, mas você só sofre porque reage ao que eles fazem. Se você aprender a observar suas próprias reações habituais sem se deixar envolver por elas, ninguém poderá forçá-lo a sofrer. Se conseguir cultivar uma equanimidade profunda dentro de si, por mais dor que os outros lhe inflijam, eles não conseguirão fazê-lo sofrer. A Vipassana o ajudará a desenvolver essa capacidade. Uma vez livre do sofrimento interior, essa mudança começará naturalmente a afetar as pessoas ao seu redor. Até mesmo a pessoa que lhe causou dano começará aos poucos a se transformar.
Evitar a realidade
Pergunta: Como a Vipassana se diferencia de evitar a realidade? Resposta: A Vipassana é a prática de encarar o mundo como ele é. Ela não permite fugir da realidade.
Jejum
Pergunta: Gostaria de saber se posso jejuar. Resposta: Não, não. O jejum total não apoia esta prática. Nem o jejum extremo nem a alimentação excessiva estão alinhados com este caminho. A Vipassana segue o Caminho do Meio. Coma com moderação — apenas o suficiente para nutrir as necessidades do corpo. Se mais tarde desejar jejuar por razões de saúde, essa é uma escolha inteiramente separada. Mas o jejum não é necessário para a meditação.
Alimentação
Pergunta: Por que uma dieta vegetariana ajuda na meditação? Resposta: Quando você consome carne ou outros produtos de origem animal, aquela vida — um animal, peixe ou qualquer ser vivo — passa toda a sua existência girando apenas entre o desejo e a aversão. Afinal, os seres humanos são capazes de momentos livres de desejo e aversão. Esses seres não conseguem escapar desse ciclo. Como resultado, cada parte do ser deles carrega as vibrações de desejo e aversão. E, como você está trabalhando para se libertar do desejo e da aversão, está absorvendo essas mesmas vibrações ao consumi-los. É fácil imaginar que tipo de vibrações isso irá despertar dentro de você. É por isso que comer carne é prejudicial à meditação.
Pergunta: Os não vegetarianos podem progredir no Vipassana? Resposta: Quando você faz um curso de Vipassana, servimos apenas refeições vegetarianas. Mas não ensinamos que comer comida não vegetariana irá condená-lo ao inferno. Isso não faz parte de modo algum dos nossos ensinamentos. Com o tempo, você deixará de comer carne por vontade própria, assim como milhares de alunos de Vipassana fizeram antes de você. Naturalmente, você chegará a um ponto em que não sentirá mais necessidade de comer comida não vegetariana. Se você já segue uma dieta vegetariana, seu progresso no Vipassana será mais fluido como consequência.
Deus
Pergunta: Quem é Deus? Resposta: A verdade é Deus. Entenda a verdade que habita em você, e você chegará a conhecer Deus.
Pergunta: Existe um Deus que criou o mundo? Resposta: Eu nunca vi tal Deus. Se você optar por acreditar em um, é totalmente livre para fazê-lo. Para mim, a verdade é Deus, a lei natural é Deus, o Dhamma é Deus. Todas as coisas surgem e se desenvolvem gradualmente por meio do Dhamma, da lei natural. Se você entender isso e viver de acordo com as leis do Dhamma, viverá uma vida boa. Não faz diferença se você acredita ou não em um Deus sobrenatural.
Pergunta: Não precisamos do poder de Deus? Resposta: O poder de Deus é o poder do Dhamma. O Dhamma é Deus. A verdade é Deus. Quando você se alinha à verdade, quando se alinha ao Dhamma, está alinhado com Deus. Cultive o poder de Deus dentro de você ao purificar sua mente.
Pergunta: Você é ateu? Resposta: (Risos). Se por "ateu" você entende alguém que não acredita em Deus de forma alguma, então não, não sou. Para mim, Deus não é um fruto da imaginação. Para mim, a verdade é Deus. A verdade última é o Deus supremo e definitivo.
Felicidade
Pergunta: Você diz que Vipassana pode levar à verdadeira felicidade. Mas permanecer feliz e em paz mesmo diante do sofrimento dos outros—isso não significa estar completamente entorpecido e insensível? Resposta: Estar profundamente ciente do sofrimento alheio não significa que você precise assumir a tristeza dos outros para si. Pelo contrário, você precisa permanecer calmo e equilibrado, para que possa, de fato, ajudar a aliviar o sofrimento alheio. Se você se deixar levar pela tristeza, só aumentará a infelicidade ao seu redor—não conseguirá ajudar ninguém, nem a si mesmo. É por isso que meu mestre, o falecido Sayagyi U Ba Khin, costumava dizer: é essencial receber a mente desequilibrada de outrem com o equilíbrio firme da sua.
Pergunta: Podemos alcançar a felicidade completa e a transformação total através do Vipassana? Resposta: O Vipassana é um caminho gradual. Quando você começa a praticar, notará que experimenta cada vez mais felicidade, até alcançar eventualmente um estado de alegria completa e inabalável. Você se transformará lentamente, passo a passo, até chegar a um estágio de mudança total e fundamental. Este é um desdobramento gradual.
Honestidade
Pergunta: Meu trabalho envolve comportamento desonesto. Não posso aceitar outro emprego, pois isso causaria grande transtorno. Resposta: À medida que você pratica Vipassana, sua mente se tornará mais forte. No momento, você é escravo da própria mente, que constantemente o impele a fazer coisas que não quer fazer. Com a prática regular de Vipassana, você ganhará força para se libertar com facilidade desse padrão, e então conseguirá encontrar um trabalho que seja benéfico para você e eticamente correto.
Hipnose
Pergunta: Qual é a diferença entre hipnose e meditação? Resposta: Os métodos genuínos da meditação indiana antiga são fundamentalmente opostos à hipnose. Algumas práticas incorporam a hipnose, mas isso constitui uma completa violação do Dhamma. O Dhamma ensina você a ser autossuficiente. A hipnose nunca pode promover a verdadeira autossuficiência. Por essa razão, os dois são inteiramente incompatíveis.
Insônia
Pergunta: Como lidar com a insônia? Resposta: Vipassana pode ajudar com isso. Quando um estudante de Vipassana tem dificuldade para adormecer, caso se deite e observe a respiração ou as sensações corporais, ele adormecerá profundamente. Mesmo que não consiga uma noite inteira de sono profundo e ininterrupto, acordará no dia seguinte sentindo-se plenamente descansado, como se tivesse dormido profundamente a noite toda. Você pode até praticar Vipassana enquanto se deita para dormir. Tente, e verá como é profundamente útil.
Pergunta: Não tenho dormido bem nos últimos dez a doze anos. Resposta: Vipassana pode resolver esse problema, desde que você pratique corretamente. Se você vier a um curso de Vipassana apenas esperando dormir melhor, é melhor nem vir! Você vai a um curso de Vipassana para se libertar das impurezas mentais que pesam sobre sua mente. A profunda inquietação da mente decorre de inúmeros estados mentais negativos e de preocupação excessiva. Vipassana começará a erradicar toda essa preocupação, negatividade e impureza mental, e você começará a experimentar um sono repousante e natural.
Karma (Causa e Efeito)
Pergunta: Como evitamos o karma? Resposta: Torne-se o mestre da sua própria mente. Vipassana ensina você a assumir o controle da sua própria mente. Caso contrário, por causa dos padrões habituais negativos profundamente arraigados na mente, você continuará agindo de maneiras que não deseja, gerando karma que não quer criar. No plano intelectual, você sabe: "Eu não deveria estar fazendo essas coisas." Mas continua repetindo-as sem parar, porque ainda não consegue controlar a mente. Vipassana o ajudará a alcançar o verdadeiro domínio sobre sua mente.
Pergunta: A riqueza é bom karma? Se sim, isso significa que a maioria dos ocidentais tem bom karma, enquanto a maioria das pessoas no Terceiro Mundo tem mau karma? Resposta: A riqueza por si só não é sinal de bom karma. Se você é rico, mas ainda assim sofre, de que adianta essa riqueza? Ter riqueza acompanhada de felicidade genuína e duradoura — esse é o sinal de bom karma. Seja você rico ou não, o mais importante é ser feliz.
Pergunta: Se toda causa tem um efeito específico, como temos livre-arbítrio para nos libertar do nosso karma? Resposta: Através da compreensão da causa. Compreender essa causa ajuda você a se libertar da reação habitual de gerar novas formações kármicas, ou padrões mentais habituais. A causa da ignorância leva você a gerar cada vez mais formações kármicas, prendendo-o nesse ciclo. A causa da sabedoria leva à libertação dessas reações habituais. As causas existem, sim. Você tem agido a partir da causa da ignorância o tempo todo, e é por isso que permanece no sofrimento. Agora, através da prática de Vipassana, você está utilizando habilmente a causa da sabedoria. Você não cria mais reações habituais.
Vida
Pergunta: Qual você acha que é o propósito da vida? Resposta: Libertar-se do sofrimento. Os seres humanos têm uma capacidade maravilhosa de olhar profundamente para dentro, observar a realidade como ela realmente é e se libertar do sofrimento. Não usar essa capacidade é um desperdício da própria vida. Use-a bem para viver uma vida verdadeiramente saudável e feliz!
Pergunta: Como posso praticar Vipassana na vida diária? Resposta: Participe de um curso de Vipassana, e você aprenderá como integrar essa prática na sua vida diária. Se fizer apenas um curso e nunca a aplicar no dia a dia, Vipassana se torna nada mais do que um ritual, uma cerimônia ou uma formalidade religiosa. Isso não lhe trará benefício algum. Vipassana é sobre viver uma boa vida, momento a momento, todos os dias.
Pergunta: O que é a vida após a morte? Resposta: Nascimento e morte estão acontecendo a cada instante. Compreenda esse processo. Isso lhe trará felicidade profunda, e você passará a entender o que acontece após a morte.
Pergunta: Qual é o objetivo final da vida? Resposta: O objetivo final da vida é aqui e agora. Se você continua ansiando por algo no futuro, mas não encontrou nenhuma realização no presente, isso é uma ilusão. Se você já começou a vivenciar paz e harmonia neste momento, então você já está no caminho para o objetivo, pois não há nada além da paz e da harmonia. Vivencie isso agora, neste exato momento. Assim, você já está verdadeiramente no caminho certo.
Libertação
Pergunta: Há seres libertos ainda no mundo hoje? Resposta: Sim. Vipassana é um caminho gradual para a libertação. Você atinge a libertação exatamente na medida em que se libera das impurezas mentais. Algumas pessoas já chegaram ao estágio de estarem completamente livres de todas as impurezas mentais.
Pergunta: A meditação é o único caminho para a libertação? Resposta: Sim. Aceitar cegamente um ensinamento apenas pela fé não traz benefício algum. Você deve se esforçar pela sua própria libertação. Você deve ver por si mesmo a fonte da sua escravidão e se libertar dela. Isso é Vipassana. Vipassana permite que você vivencie diretamente a verdadeira raiz da escravidão, a verdadeira raiz do sofrimento, e gradualmente o liberta de todo sofrimento. É por isso que a libertação vem da prática de Vipassana.
Os Mundos
Pergunta: Em suas palestras, você menciona 31 mundos, mas isso geralmente parece muito especulativo. Podemos perceber isso no nível da sensação? Resposta: Claro que pode. Toda esta prática o leva a um estágio onde você começará a notar — alguns alunos, em número muito pequeno, já começaram a notar isso — "Que vibração estou vivenciando agora? Qual é a natureza desta vibração?" A partir dessas sensações, eles chegam a compreender que a vibração deste loka em particular, deste mundo em particular, tem uma qualidade específica e distinta. Mais tarde, eles podem compreendê-la com ainda mais detalhes. Mas você não precisa aceitar a realidade desses 31 mundos como questão de fé para progredir no Dhamma. Isso não é necessário. Você só passa a aceitar isso quando alcança esse estágio por si mesmo, onde pode vivenciar diretamente tais realidades sutis em primeira mão.
Mantras
Pergunta: Como Vipassana se diferencia de outros métodos de meditação que usam mantras, por exemplo? Eles também não servem para focar a mente? Resposta: Não há dúvida de que mantras, ou a visualização de qualquer forma ou imagem, podem facilmente ajudar a focar a mente. Mas o propósito de Vipassana é purificar a mente. Um mantra cria uma vibração específica e fabricada. Cada palavra, cada mantra, gera uma vibração específica, e se uma pessoa o repete por um longo tempo, ela se absorve nessa vibração criada artificialmente. Vipassana, por outro lado, convida você a observar suas próprias vibrações naturais — que se manifestam como sensações corporais —, ou seja, as vibrações que surgem quando você está com raiva, apaixonado, com medo ou com ódio, para que possa se libertar delas.
Metta / Meditação de Amor-Bondade
Pergunta: O que é a meditação de amor-bondade?
A: A meditação de amor-bondade (metta) ou meditação de compaixão é uma forma de gerar ondas de boa vontade e compaixão. Ela é ensinada pela primeira vez aos alunos no décimo dia do curso de dez dias de Vipassanā. Depois disso, ao final de cada curso — ou após uma hora de meditação sentada — pede-se aos meditadores que pratiquem o amor-bondade, compartilhando o mérito da sua prática com todos os seres sencientes. A onda de compaixão é uma vibração real; à medida que a mente se torna mais pura, seu poder benéfico aumenta.
P: A compaixão também cresce à medida que o samādhi (concentração) se fortalece?
A: Sim. Sem samādhi, a compaixão não é uma compaixão verdadeira. Quando o samādhi é fraco, a mente está inquieta e agitada — e ela está agitada porque está gerando impurezas, como alguma forma de cobiça ou aversão. Com essas impurezas como obstáculo, você não pode esperar produzir qualidades benéficas, ondas de amor-bondade ou compaixão. Isso não é possível.
Você pode ficar repetindo "Seja feliz, seja feliz", mas não vai funcionar. Se você tem samādhi, mesmo que por um instante, sua mente está firme e serena. Não é preciso que todas as impurezas tenham desaparecido; mas nesses momentos, quando você se senta para cultivar o amor-benevolente, sua mente está calma, firme e livre de gerar qualquer impureza. Qualquer compaixão que você oferecer então será forte, eficaz e genuinamente útil.
P: A compaixão é um resultado natural da pureza mental, ou precisa ser ativamente cultivada? Existem estágios progressivos?
R: Ambos. Segundo a lei da natureza — a lei do Dhamma —, uma vez purificada a mente, a essência da compaixão se desdobra naturalmente. Por outro lado, é preciso empreender esforço para desenvolvê-la por meio da prática. Somente em estágios muito avançados de pureza mental é que a compaixão surge por si mesma, sem qualquer artifício ou treinamento. Até que você alcance esse ponto, é preciso praticar.
Além disso, pessoas que não praticam Vipassanā também podem praticar o amor-benevolente. Em países como Mianmar, Sri Lanka e Tailândia, é bastante comum que cada lar o pratique. Geralmente, porém, a prática se limita à recitação mental: "Que todos os seres sencientes sejam felizes e estejam em paz." Isso certamente traz alguma serenidade a quem recita. As vibrações salutares podem se difundir um pouco na atmosfera ao redor, mas não são muito fortes.
Quando você pratica Vipassanā, entretanto, começa a purificar a mente. Construído sobre essa base, o amor-benevolente que você pratica se tornará naturalmente mais forte. Você não precisará mais repetir em voz alta os seus bons desejos. Você alcançará um estágio no qual, a todo momento, todo o seu ser irradia compaixão e boa vontade em relação aos outros.
P: Como o amor-benevolente ajuda a desenvolver mudita (alegria compassiva) e karuna (compaixão)?
R: Quando alguém desenvolve o amor-benevolente, mudita e karuna surgem naturalmente. O amor-benevolente é amor por todos os seres sencientes. Ele remove até mesmo o mais leve traço de raiva, hostilidade e ódio em relação aos outros — e também a mais leve suspeita e o ciúme.
Alegria Compassiva (Mudita)
P: O que é a alegria compassiva?
R: Quando você vê os outros terem sucesso e se tornarem mais felizes, se a sua mente estiver impura, sentirá ciúme. "Por que eles conseguem essas coisas e eu não? Eu as mereço mais. Por que eles conseguem tais posições de poder ou status? Por que não eu? Por que eles podem ganhar tanto dinheiro? Por que não eu?" Esse ciúme vem de uma mente impura.
Através da Vipassanā, à medida que a mente se torna mais pura e sua compaixão se fortalece, você sentirá felicidade ao ver os outros felizes. "Há sofrimento em toda parte. Veja, ao menos uma pessoa está feliz. Que ela seja feliz e esteja satisfeita. Que ela progrida no Dhamma e cresça na arte de viver bem." Essa é a alegria compassiva — a felicidade da empatia. Virá um dia em que você alcançará esse estado.
A Mente
P: O que é a mente? Onde ela está?
R: A mente está presente em cada átomo do seu ser. Você virá a compreender isso através da Vipassanā. À medida que pratica, você investigará e analisará sua mente, seu corpo e a interação entre os dois.
P: Você falou em remover qualidades não salutares da mente. O que isso significa?
R: Por exemplo, você carrega emoções na mente — sentimentos de depressão, hostilidade em relação aos outros. Essas são qualidades não salutares. Elas o mantêm infeliz. Com essas emoções, você prejudica a si mesmo e aos outros igualmente. Você deve, aos poucos, deixá-las ir. Então você conhecerá uma paz interior profunda.
P: Qual é a relação entre mente e cérebro?
R: O cérebro é simplesmente um órgão do corpo. Você o trata da mesma forma que trata qualquer outra parte — é só isso. Não há tratamento especial para o cérebro. A mente, porém, é inteiramente diferente. No Ocidente, toda a importância é dada ao cérebro, como se a mente estivesse localizada ali. Ela não está. A mente está em toda parte — por todo o corpo. Portanto, direcione sua atenção para o corpo inteiro.
P: Se você purifica o corpo, purifica a mente?
A: Não. Mesmo que você purifique o corpo, a mente ainda pode guardar impurezas, que acabam tornando o corpo impuro de novo. A raiz do problema está na mente, não no corpo. O corpo é apenas um suporte. Com a ajuda do corpo, a mente consegue funcionar — mas é ela que precisa ser purificada. Você pode lavar o corpo quantas vezes quiser, mas a mente continua por lavar, ainda impura. É a mente que deve ser purificada. Agora, se você purificar a mente, o corpo é purificado junto com ela. É assim que funciona. O propósito da Vipassanā é purificar a mente.
P: Você disse que, durante a meditação (em ānāpāna), afiamos a mente. Como a mente se afia?
R: Se você se mantém em contato com a realidade e não reage a ela por puro hábito, a mente naturalmente se afia. Quando a mente reage por hábito, ela embota. Quanto mais reagimos por hábito, mais grosseira a mente se torna. Quando não reagimos por hábito, a realidade natural da mente é extremamente afiada e sensível.
Conduta Moral
P: Por que você dá tanta importância à conduta moral e à observância dos cinco preceitos nos cursos de Vipassanā?
R: Já vi muitos alunos que não levam os preceitos nem a conduta moral a sério e, por isso, não conseguem fazer nenhum progresso real. Sīla é o alicerce do Dhamma. Quando o alicerce é fraco, toda a estrutura desaba. Essas pessoas podem ter participado de muitos cursos ao longo dos anos e tido experiências maravilhosas na meditação, mas nada se altera na sua vida do dia a dia. Elas continuam inquietas e sofrendo, porque estão apenas tratando a Vipassanā como um jogo — como tantos outros jogos que já jogaram na vida. Esses são os verdadeiros fracassos. Quem realmente quer melhorar de vida por meio do Dhamma deve observar os preceitos com todo o cuidado que for capaz.
P: Devemos levar uma vida moral, mas a moralidade está em queda no mundo.
R: Mais um motivo para o Dhamma surgir agora, quando a moralidade está em queda! Quando a escuridão nos cerca por todos os lados, é exatamente o momento de a aurora raiar, de o sol nascer.
P: Se você faz parte das Forças Armadas, matar o inimigo é uma violação da moralidade?
R: Sim. Mas, ao mesmo tempo, as forças armadas são necessárias para defender o país e proteger o seu povo. Elas não devem existir apenas para matar: sua função é demonstrar a força da nação, para que nenhum inimigo sequer pense em invadir ou fazer mal ao povo. Por isso, as forças armadas são necessárias — não para matar, mas para mostrar força. Se alguém ameaçar o país, o primeiro passo é dar um aviso. Se o conflito se tornar inevitável, então é preciso agir. Mesmo assim, os soldados devem ser treinados para não ter raiva nem hostilidade. Caso contrário, suas mentes ficam desequilibradas, e todas as suas decisões estarão erradas. Com uma mente equilibrada, conseguimos tomar decisões certas e benéficas — tanto para nós mesmos quanto para os outros.
Dor
P: Quando estamos sentindo dor, como a mente consegue se manter equilibrada?
R: Sempre que algo que nos desagrada acontece no mundo exterior, surge no corpo uma sensação desagradável. O meditador de Vipassanā coloca total atenção nessas sensações, sem reagir de nenhuma forma — apenas as observando de modo objetivo. No começo isso é difícil, mas com uma mente calma e equilibrada, aos poucos fica mais fácil perceber sensações grosseiras e desagradáveis — o que chamamos de dor. O que é agradável e o que é desagradável não são diferentes. Toda sensação surge e logo se desfaz. Por que reagir a algo tão passageiro?
Paz
P: Por que não vivemos em estado de paz?
R: Porque nos falta a sabedoria que vem da experiência direta. Uma vida sem a sabedoria da própria experiência direta é uma vida de fantasia — um estado de inquietação e sofrimento. Nossa primeira responsabilidade é levar uma vida saudável e harmoniosa, benéfica tanto para nós mesmos quanto para os outros. Para isso, precisamos aprender a usar nossa capacidade de auto-observação e de observar a realidade como ela é.
P: Quando o mundo está em guerra, que sentido faz buscar a paz interior?
R: O mundo só estará em paz quando as pessoas estiverem pacíficas e felizes. A mudança deve começar com cada indivíduo. Se uma floresta estiver morta e você quiser trazê-la de volta à vida, precisa regar cada árvore. Se você quer a paz mundial, aprenda a tornar-se pacífico. Só então poderá levar paz ao mundo.
P: O sofrimento, a guerra e o conflito existiram ao longo da história. O senhor realmente acredita que pode haver um mundo em paz?
R: Ah, mesmo que apenas algumas pessoas saiam do sofrimento, já é bom. Quando a escuridão nos cerca por todos os lados e uma única lâmpada começa a brilhar, já é bom. E se essa única lâmpada se tornar dez, ou vinte, a escuridão será recuada por toda parte. Não podemos prometer que o mundo inteiro se tornará pacífico — mas quanto mais paz você conseguir encontrar dentro de si, mais ajudará a trazer paz ao mundo.
Cursos em Prisões
P: Pessoas que cometeram crimes graves podem praticar Vipassanā?
R: Claro. Vipassanā é para purificar a mente; visa libertar as pessoas de suas tensões e sofrimento. Quem cometeu crimes muito graves — assassinato, estupro, incêndio criminoso — são pessoas em profundo sofrimento; suas mentes estão cheias de tensão. Muitas prisões na Índia agora oferecem cursos de Vipassanā. Na verdade, um dos maiores fica no Presídio de Tihar, em Délhi, conhecido como Dhamma Tihar.
Renascimento
P: O senhor acredita em renascimento?
R: Se eu acredito ou não, não vai ajudá-lo. Pratique Vipassanā, e você alcançará um estágio em que poderá ver seu próprio passado e futuro. Aí poderá acreditar. Não acredite em algo só porque seu professor afirma. Caso contrário, você só estará se apegando cegamente à autoridade do professor — e isso vai contra o Dhamma.
Serviço Altruísta
P: Como uma pessoa encontra equilíbrio entre o serviço altruísta e o autocuidado?
R: (Risos) Se uma pessoa não consegue cuidar de si mesma, que tipo de serviço pode oferecer? Cuide de si primeiro, e então comece a se dedicar ao serviço altruísta.
Sexualidade
P: Como a sexualidade é vista dentro da organização Vipassanā?
R: Não dizemos aos novos alunos que devem viver uma vida de celibato reprimido e forçado. Isso não é saudável — cria mais dificuldades, mais tensão, mais problemas. Portanto, o conselho dado aos estudantes de Vipassanā é ter um relacionamento com apenas um parceiro — um homem, uma mulher — e praticar a moderação. Se ambos os parceiros forem meditadores de Vipassanā, um dia se libertarão naturalmente de sua necessidade de sexo. O sexo é desnecessário. Suas mentes estarão tão contentes, tão felizes, que a intimidade física perderá o seu significado. Mas isso deve acontecer naturalmente, não pela força. Quando alguém começa a praticar Vipassanā, não precisa viver em celibato. Contudo, deve estar em um relacionamento com apenas uma pessoa; caso contrário, a loucura continua, e sua paixão se multiplica até não conseguir se libertar dela.
P: O que significam "relações sexuais moderadas"?
R: Um relacionamento sexual comedido significa não se obcecar com sexo — não se deixar conduzir por ele. Se alguém troca constantemente de parceiros sexuais, isso é falta de comedimento. Quando você está com apenas uma pessoa, as relações sexuais naturalmente se tornam menos frequentes. Quando você tem relações sexuais com muitas pessoas, o desejo apenas se multiplica. Essa é simplesmente a lei da natureza. Jogue gasolina no fogo, e ele arderá com mais fúria.
P: Qual é a diferença entre o comportamento sexual certo e o errado? É uma questão de intenção?
A: Não. O sexo ocupa o seu lugar adequado na vida do leigo. Não deve ser reprimido à força, pois o celibato forçado gera tensão — e, com ela, mais problemas, mais dificuldades. Mas se você ceder livremente aos seus desejos, agindo a cada surto de paixão com qualquer pessoa, nunca conseguirá libertar a mente da própria paixão. Evitando esses dois extremos perigosos, o Dhamma oferece o caminho do meio: uma expressão saudável da sexualidade que ainda permite o crescimento espiritual — um relacionamento de fidelidade mútua entre um homem e uma mulher. E se o seu parceiro também for um meditador de Vipassana, sempre que a paixão surgir, ambos a observam no nível das sensações corporais, exatamente como a Vipassana os treina a fazer. Isso não é repressão, nem indulgência. Por meio da observação, vocês podem gradualmente se libertar da paixão. Um casal ainda pode ter relações sexuais de vez em quando, mas aos poucos alcança um estágio em que o sexo perde toda a significância. Esse é o verdadeiro estado natural de libertação da luxúria, onde nem um único pensamento de paixão surge na mente. A alegria de viver livre da luxúria supera em muito qualquer gratificação sexual. Você se sente tão contente, tão em paz. Você precisa aprender a experimentar essa felicidade verdadeira.
Q: No Ocidente, muitas pessoas acreditam que qualquer relação sexual entre dois adultos consencientes é aceitável.
A: Essa visão está muito distante do Dhamma. Alguém que mantém relações sexuais com uma pessoa, depois com outra, depois com mais uma, está apenas multiplicando a sua paixão e a sua miséria. Você deve ser fiel a uma pessoa, ou viver uma vida de celibato.
Sociedade
Q: Como a Vipassana resolve os problemas sociais?
A: A sociedade, afinal, nada mais é do que um grande grupo de indivíduos. Para resolver os problemas da sociedade, primeiro é preciso resolver os problemas de cada indivíduo. Queremos paz no mundo, mas não fazemos nenhum esforço para alcançar a paz dentro de cada pessoa. Isso é possível? A Vipassana oferece a todos a oportunidade de experimentar paz e harmonia por si mesmos. Ela ajuda a resolver os problemas do indivíduo. É assim que a sociedade começa a experimentar paz e harmonia. É assim que os problemas sociais começam a ser resolvidos.
Q: Perdoar um criminoso é o mesmo que incentivar o crime?
A: De modo algum — você deve continuar a impedir que pessoas cometam crimes. Mas não responda ao criminoso com aversão ou raiva. Encontre-o com amor, compaixão e bondade amorosa. Essa pessoa está sofrendo, agindo por ignorância, sem saber o que realmente está fazendo. Ela está se prejudicando tanto quanto aos outros. Portanto, faça tudo o que puder, em corpo e palavra, para impedi-la de cometer crimes — mas trate-a com amor e compaixão. É isso que a Vipassana ensina.
Q: Se uma ação negativa é feita para beneficiar os outros, ainda assim é ruim?
A: Sem dúvida. Uma ação negativa começa a prejudicá-lo no exato momento em que você a comete. E, quando você está se prejudicando, não consegue ajudar ninguém. Uma pessoa aleijada não consegue carregar outra pessoa aleijada. Primeiro, torne-se inteiro, e você verá que já começou a ajudar os outros.
Q: Você frequentemente critica os rituais religiosos na sociedade, mas o que há de errado em expressar respeito e gratidão?
A: Não há nada de errado nisso. Respeito e gratidão não são rituais religiosos. Um ritual é quando você não compreende o que está fazendo — quando faz algo apenas porque outra pessoa mandou você fazer. Se, do fundo do seu ser, você sabe: "Estou prestando respeito aos meus pais", ou "Estou prestando respeito a um deus ou deusa específico" — então pergunte a si mesmo: quais são as qualidades desse deus ou deusa? Estou cultivando essas mesmas qualidades em mim mesmo, como uma homenagem genuína? Estou desenvolvendo as mesmas virtudes que os meus pais encarnam, para verdadeiramente honrá-los? Se a resposta for sim, então você está agindo com compreensão correta, e esses não são mais rituais ou cerimônias vazias. Mas, se você faz algo de forma mecânica, isso se torna exatamente isso — um ritual.
Q: Somos afetados pelas ações uns dos outros?
A: Claro. Somos influenciados pelas pessoas e pelo ambiente ao nosso redor, e, por nossa vez, também os influenciamos constantemente. Se a maioria das pessoas favorece a violência, surgem guerras e destruição, e muitos sofrem por causa disso. Mas se as pessoas começarem a purificar suas mentes, a violência simplesmente não surge. A raiz do problema está na mente de cada indivíduo, porque a sociedade é composta por indivíduos. Se todos começam a mudar, a sociedade muda, e a guerra e a destruição se tornam raras.
P: Se todos têm de enfrentar as consequências de suas próprias ações, como podemos então ajudar uns aos outros?
A: Nossas próprias ações mentais têm impacto sobre os outros. Se só geramos emoções negativas em nossas mentes, essa negatividade afeta todos com quem temos contato. Mas se enchemos a mente de positividade e boa vontade para com os outros, isso tem um efeito benéfico sobre todos ao nosso redor. Você não pode controlar as ações das outras pessoas ou o karma delas, mas pode se controlar — e, ao fazê-lo, exercer uma influência positiva sobre quem está à sua volta.
Sofrimento
P: Por que outras pessoas nos causam sofrimento?
A: Ninguém faz você sofrer. A tensão que você cria em sua própria mente é o que causa seu sofrimento. Uma vez que você aprende a não fazer isso, torna-se fácil permanecer pacífico e feliz em qualquer situação.
P: Quando alguém nos faz mal, o que devemos fazer?
A: Você não deve deixar que os outros cometam injustiças contra você. Sempre que alguém age de forma errada, prejudica não apenas os outros, mas também a si mesmo. Se você finge não ver, está apenas encorajando a má conduta dessa pessoa. Faça o seu melhor para impedi-la — mas mantenha a boa vontade, a compaixão e a simpatia por essa pessoa. Se você agir com ódio ou raiva, só piorará as coisas. E, no entanto, a menos que sua mente esteja calma e pacífica, você não pode verdadeiramente desejar o bem a alguém. Portanto, pratique cultivar a paz dentro de si — é assim que você será capaz de resolver o problema.
P: O sofrimento não é uma parte natural da vida? Por que tentar escapar dele?
A: Nós nos tornamos tão atolados no sofrimento que escapar dele pode parecer antinatural. Mas, uma vez que você experimenta a verdadeira felicidade de uma mente pura, percebe que isto — isto — é o estado natural da mente.
P: A experiência do sofrimento pode enobrecer uma pessoa e ajudá-la a crescer em caráter?
A: Sim. Na verdade, essa técnica usa deliberadamente o sofrimento como ferramenta de transformação. Mas ela só funciona se você aprender a observar o sofrimento de forma objetiva. Se você se apegar a ele, a experiência não consegue elevá-lo — você permanecerá preso no sofrimento.
P: Se alguém age de forma errada, está fadado a sofrer no futuro?
A: Não no futuro — aqui e agora! No momento em que as impurezas começam a surgir na mente, a lei da natureza aplica sua punição imediatamente. Você não pode gerar impurezas e ainda se sentir em paz. O sofrimento é instantâneo. Somente quando você reconhece que o sofrimento está aqui e agora é que começará a quebrar o padrão habitual de gerar impurezas que leva à fala e à ação erradas. Se você pensa: "Ah, serei punido na minha próxima vida — não preciso me preocupar agora", isso não vai ajudá-lo em nada.
Vibrações
P: O que são vibrações? Como elas nos afetam?
A: Tudo no universo é vibração. Isso não é teoria — é fato. O universo inteiro não passa de vibrações. Vibrações benéficas nos fazem felizes; vibrações prejudiciais trazem sofrimento. A Vipassana ajuda você a libertar-se da influência de vibrações prejudiciais — aquelas geradas por uma mente cheia de cobiça e aversão. Quando a mente está em perfeito equilíbrio, as vibrações que ela produz são boas. E essas vibrações, sejam boas ou más, começam a afetar a atmosfera ao seu redor. A Vipassana ajuda você a gerar vibrações puras de compaixão e boa vontade — benéficas para você e para todos ao seu redor.
Cursos de Vipassana
P: Que conselho você daria a quem não pode participar de um curso de dez dias?
A: Decida-se a participar de um curso de dez dias. Não há outro caminho. Sem mágica, sem milagres. Por que eu pediria às pessoas que reservassem dez dias de suas vidas se pudesse simplesmente sentar aqui e ensiná-las em uma hora, pronto? Seria muito mais fácil — mas não funciona. Você precisa reservar dez dias da sua vida para aprender essa técnica. É um método tão profundo e sutil que leva pelo menos dez dias para aprender Vipassana corretamente.
Q: Alguém pode aprender Vipassana através de um livro? A: Não. Isso seria muito perigoso. Vipassana é uma operação delicada e profunda na mente. Você deve participar de um curso de dez dias para começar.
Q: Como posso participar de um curso de Vipassana? A: Os formulários de inscrição podem ser enviados para qualquer centro de Vipassana na Índia ou no exterior. Antes de se inscrever, você deve concordar em seguir certas regras — o código de disciplina. A participação é totalmente voluntária e livre de coerção. No entanto, quando o curso se inicia, as regras devem ser rigorosamente observadas. Elas existem para garantir que os alunos obtenham o máximo benefício do curso.
Q: Qual é a taxa ou o custo de um curso de Vipassana? A: Taxa?! O Dhamma é inestimável! Não há custo de ensino — ensinar Vipassana nunca é cobrado. Os cursos de Vipassana são totalmente gratuitos. Por um breve período no início, era cobrada uma pequena quantia por alimentação e acomodação. Felizmente, essa cobrança foi abolida posteriormente. Por isso, hoje as pessoas participam dos cursos de Vipassana sem pagar absolutamente nada.
Q: Por que não há taxa para participar de um curso de Vipassana? A: Como já mencionei, uma razão é que o Dhamma é inestimável — não pode ser medido em dinheiro. Outra razão é que, durante um curso, o aluno pratica se afastar das preocupações mundanas de um leigo. Ele ou ela vive como um monge ou uma monja, sustentado pela generosidade alheia. Isso ajuda a reduzir o ego — uma das maiores causas de sofrimento. Se alguém paga até mesmo uma taxa pequena, o ego se infla, e a pessoa pode começar a pensar: "Eu quero isso. Este local não é bom o suficiente para mim", ou "Eu posso fazer o que bem entender aqui." Esse ego se torna um grande obstáculo no caminho do Dhamma. Essa é outra razão pela qual não se cobra nenhuma taxa. É a tradição do Dhamma há milhares de anos. Quando o Buda ofereceu o tesouro impagável de Vipassana, ele alguma vez cobrou uma taxa!
Q: Já que os alunos não pagam nada, como são cobertas as despesas do curso? A: As despesas são custeadas por doações voluntárias (dana) de alunos que já concluíram pelo menos um curso de Vipassana. Seja a doação em dinheiro ou em trabalho, ela vem da mesma motivação de Dhamma: "Graças à generosidade alheia, me beneficiei muito com essa técnica maravilhosa — que outros também possam se beneficiar." O que mais importa é a intenção por trás da oferta. Uma doação nascida de uma motivação de Dhamma pura — mesmo que seja apenas um punhado de terra fértil — vale muito mais do que um saco de ouro dado por ego ou sem nenhuma motivação de Dhamma. Uma doação feita com o coração puro traz benefício para quem doa. Mas isso não significa que, ao final do curso, alguém vá perguntando a cada aluno se quer doar. Uma mesa é colocada em um canto silencioso, e quem quiser dar vai até lá por vontade própria — só isso.
Q: Por que você diz que as primeiras horas da manhã são um bom momento para meditar? A: Ir para a cama cedo e acordar cedo é um bom hábito, que ajuda a manter a sua saúde. As primeiras horas da manhã também são ideais para a sua prática diária de meditação, pois todas as outras pessoas ainda estão dormindo. Quando as pessoas estão acordadas, o desejo está por toda parte — toda a atmosfera está saturada dele — e é difícil meditar com qualidade. Por isso, quando todos estão dormindo e você está meditando — esse é o melhor momento.
Pagode Vipassana
Q: Há uma preocupação de que o Grande Pagode, que será concluído em breve em Mumbai, faça com que o Vipassana se torne apenas mais uma seita.
P: Ah! Se esse professor tivesse vivido apenas mais alguns anos, vocês veriam como ele podia ser severo. Ele jamais teria permitido que qualquer coisa que fizéssemos se tornasse sectária. Se a pagoda se tornasse uma ferramenta que reduzisse os ensinamentos do Buda a uma seita, a uma religião organizada, então todo o nosso ensinamento iria afundar na lama — seria tudo em vão. Se a pagoda fosse usada para rezar — "Pagoda, por favor, me conceda isso, por favor, me conceda aquilo, preciso disso, preciso daquilo" — então, sem dúvida, tudo se tornaria apenas mais uma religião organizada.
Mas usaremos a pagoda no espírito do Dhamma. Ou seja, a pagoda existe para apresentar o Vipassana a cada vez mais pessoas. Primeiro elas vêm por curiosidade — "Que estrutura magnífica, o que há dentro?" Então, quando chegam, recebem a mensagem: "Vejam, este é o Buda. Que tipo de pessoa ele era? O que ele ensinou? O que houve em sua vida? Foi o Vipassana que o transformou no Buda. O Vipassana fez dele um grande mestre do Dhamma, que tanto deu ao mundo, e tantas pessoas se beneficiaram." Compartilhamos essa mensagem para que, digamos, de dez mil visitantes, mesmo que apenas cem realmente se beneficiem, o restante pelo menos saia com a compreensão correta. É assim que garantiremos que a pagoda não dê origem a mais uma seita. Caso contrário, todo o propósito estaria perdido.
Meditação Vipassana
P: Os profissionais têm relativamente pouco tempo. Como podem praticar meditação?
R: A meditação é especialmente importante para os profissionais! Os leigos carregam responsabilidades mundanas e precisam ainda mais do Vipassana, porque precisam enfrentar tantos altos e baixos na vida. Esses altos e baixos os deixam agitados e inquietos. Se aprenderem o Vipassana, ficam melhor preparados para lidar com a vida. Podem tomar boas decisões, decisões sólidas — e isso ajuda enormemente.
P: Podemos combinar dois ou mais métodos de meditação?
R: Combinem quantos outros métodos quiserem, mas não os misturem com o Vipassana. O Vipassana é uma técnica única. Misturá-lo com qualquer outra coisa não vai ajudar — pode até prejudicar. Mantenham o Vipassana puro. Outros métodos apenas arranham a superfície da mente. O Vipassana realiza uma cirurgia profunda; remove complexos mentais das próprias profundezas da mente. Se combinarem o Vipassana com outros métodos, estão apenas brincando, e podem causar a si mesmos um grande dano.
P: Não é egoísta retirar-se do mundo e ficar sentado meditando o dia todo?
R: Usar a meditação para conquistar saúde mental não tem nada de egoísmo. Quando o corpo está doente, você se interna num hospital e se recupera. Não dá para dizer: "Ah, estou sendo egoísta." Você entende que um corpo doente e ferido não consegue levar uma vida adequada. Ou pense em alguém que vai à academia para ficar mais forte. É a mesma coisa — alguém não vai a um centro de meditação para sempre; vai para deixar a mente mais saudável. E uma mente saudável é essencial para viver o dia a dia de um jeito que beneficie a si mesmo e aos outros.
P: Consigo entender como a meditação ajuda pessoas que estão psicologicamente perturbadas ou infelizes, mas como pode ajudar alguém que já está satisfeito com a vida, que já é feliz?
R: Quem está contente com os prazeres superficiais da vida simplesmente não percebe a profunda agitação interior. Vive sob a ilusão de ser uma pessoa feliz, mas essa felicidade não dura. A tensão que se acumula nas profundezas da mente só faz aumentar, e mais cedo ou mais tarde irrompe na superfície. Então essa suposta pessoa "feliz" se torna miserável. Por que não começar a fazer o esforço de meditar aqui e agora, preparando-se para quando esse momento chegar?
P: O Vipassana pode curar o corpo?
R: Sim — como consequência. Quando as tensões mentais se desfazem, muitas doenças psicossomáticas desaparecem por conta própria. Se a mente está agitada, as doenças físicas acabarão surgindo aos poucos. Quando a mente se torna calma e pura, elas desaparecem naturalmente. Mas, se você fizer da cura física o seu objetivo ao praticar Vipassana, em vez de purificar a mente, acabará sem nenhum dos dois. Já vi pessoas fazerem um curso com o único intuito de curar uma doença física — passam o tempo inteiro obcecadas com a sua doença: "Será que hoje está um pouco melhor? Não, não está melhor… Alguma melhora hoje? Não, nenhuma melhora." Desperdiçam os dez dias inteiros assim. Mas, quando a atenção se volta para a purificação da mente, muitas doenças desaparecem por si só como resultado da prática.
P: Como a psicanálise se compara com a Vipassana?
R: Na psicanálise, você tenta recordar eventos passados guardados na mente consciente — eventos que influenciam fortemente as suas reações mentais habituais. A Vipassana, por outro lado, leva o meditante ao nível mais profundo da mente, à verdadeira origem desses hábitos. Na psicanálise, cada evento que uma pessoa tenta recordar também produz uma sensação no corpo. Ao observar com equanimidade as sensações naturais que surgem por todo o corpo, o meditante permite que inúmeras camadas de reação habitual surjam e se dissolvam. Está-se trabalhando na raiz do padrão e, por isso, pode-se libertar dele com facilidade e rapidez.
P: Quantos cursos de Vipassana uma pessoa deve frequentar?
R: Varia de pessoa para pessoa, mas eu sugeriria participar primeiro de um curso de dez dias e, depois, observar como a Vipassana ajudou você. Se perceber que consegue aplicá-la na sua vida, ótimo. Mais tarde, faça outro curso de dez dias. Mas o mais importante não é apenas frequentar cursos — é colocar a técnica em prática na vida diária. Se a Vipassana ganha vida na sua experiência cotidiana, você está praticando corretamente. Caso contrário, só frequentar cursos não vai ajudar.
P: Essa técnica não é meio egocêntrica? Como encontrar motivação para ajudar os outros?
R: No começo, você precisa mesmo se concentrar em si mesmo — precisa se ajudar primeiro. Se não o fizer, não consegue ajudar mais ninguém. Uma pessoa fraca não consegue ajudar outra pessoa fraca. Você precisa se tornar forte primeiro e, então, usar essa força para ajudar os outros a também se tornarem fortes. A Vipassana desenvolve exatamente esse tipo de força, para que você possa ser útil aos outros.
P: Se estivermos sempre nos observando, como podemos viver com naturalidade? Não ficaremos tão ocupados nos observando que não conseguiremos agir de forma livre ou espontânea?
R: Não é isso que as pessoas descobrem depois de concluir um curso de Vipassana. Aqui você aprende um treinamento mental que lhe dá a capacidade de se observar no dia a dia sempre que precisar. Ninguém está pedindo que você fique sentado de olhos fechados praticando o dia inteiro pelo resto da vida. Mas, assim como o exercício físico desenvolve força e ajuda você na vida diária, esse treinamento mental o torna mais forte. O que você chama de ação "livre, espontânea" é, na verdade, reação cega, e geralmente é prejudicial. Ao aprender a se observar, você descobrirá que, quando surgem dificuldades na vida, consegue manter a mente equilibrada. Com esse equilíbrio, você é verdadeiramente livre para escolher como agir. Você agirá de forma prática — sempre positiva, sempre benéfica para si mesmo e para os outros.
Última modificação: 01 de fevereiro de 2002