O que é um Koan (Parte 2)
Os koans surgiram como registros de processos guardados em escritórios governamentais: arquivos de casos sem precedentes. Na tradição Chan (Zen), porém, o termo designa os casos individuais de despertar de antigos mestres Chan. São narra...
Os koans surgiram como registros de processos guardados em escritórios governamentais: arquivos de casos sem precedentes. Na tradição Chan (Zen), porém, o termo designa os casos individuais de despertar de antigos mestres Chan. São narrativas de diálogos entre patriarcas da linhagem Chan e seus discípulos — diálogos que, aos olhos do pensamento comum, frequentemente parecem destituídos de sentido ou contrários a toda lógica.
Para quem tem apenas uma compreensão superficial do Chan, ou quem não alcança a natureza singular de sua prática, um koan não soa mais que a tagarelice incoerente de loucos. De modo geral, koans fáceis de decifrar e dotados de sentido claro e óbvio são considerados rasos, enquanto os desconcertantes e de linguagem obscura são vistos como mais profundos.
Nos 250 anos que se seguiram ao Sexto Patriarca Huineng, o ensino vivo do Chan floresceu. Do círculo de discípulos de Huineng, passando pelos mestres de quarta geração Zhaozhou, Huangbo e Weishan, até os mestres de quinta geração Linji, Yangshan e Deshan, todos empregaram esse método de despertar súbito para ajudar incontáveis praticantes a vivenciar a iluminação.
O conjunto completo desses koans soma 1.700. Antes da dinastia Song do Norte, ninguém os havia reunido nem organizado. Foi durante a Song do Norte que o mestre Fenyang Shanzhao organizou pela primeira vez os Cem Casos dos Antigos Virtuosos. Os praticantes se valem das histórias dessa coleção para formular uma pergunta: como os patriarcas despertaram diante de tal diálogo? Sustentar essa pergunta, uma e outra vez, é o que se chama investigar um koan.
Quando um praticante atinge certo estágio em sua prática, o mestre lhe indicará um koan específico para investigar; trabalhar com esse koan o ajudará a avançar mais. Se, porém, o mestre for inábil e atribuir um koan ao acaso — que não corresponda à capacidade do discípulo —, então a investigação não dará frutos.
Investigar um koan não é adivinhar nem especular, tampouco usar o intelecto para raciocinar e deliberar. Não se pode explicá-lo pelo senso comum nem pelo conhecimento da doutrina budista. Muitos escreveram livros tentando explicar koans, mas tais esforços não passam de mera explicação — não de investigação — e nada têm a ver com a experiência do despertar. Então será que os koans podem ser explicados? Em certo sentido, sim; mas, quanto à sua função na prática Chan, analisá-los não tem propósito algum.
Até que alguém rompa pessoalmente para uma compreensão direta, o koan é apenas uma ferramenta. Somente depois dessa ruptura é possível perceber sua essência viva e vibrante. Não se pode vivenciar as experiências de despertar dos patriarcas Chan pelo raciocínio intelectual ou pela imaginação. É preciso suscitar uma dúvida profunda e persistente sobre a questão que está no cerne do koan — formular a pergunta sem tentar respondê-la pelo próprio raciocínio lógico.
Mesmo depois que um koan foi investigado e realizado, essa realização não pode ser plenamente exposta nem partilhada com outros por palavras ou escritos. Só pode ser comunicada — por gestos e sinais silenciosos — àqueles cuja realização iguala ou supera a nossa. Isso é o que se chama selo de mente a mente: uma compreensão direta e sem palavras, que passa de um coração a outro.